Curitiba, 13 de janeiro de 2026
A Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (Sesa) iniciou o novo período epidemiológico da dengue e divulgou, nesta terça-feira (13), dois informes de arboviroses urbanas: um consolidando as Semanas Epidemiológicas 01 a 53 de 2025 e outro referente à Semana 01 de 2026. O novo ano epidemiológico começou em 4 de janeiro. Por se tratar do início do ciclo, os números de 2026 ainda podem sofrer ajustes em boletins posteriores.
Até 7 de janeiro de 2026, a Sesa registrou 384 notificações de casos suspeitos de dengue, com 10 confirmações. A leitura técnica desse dado exige cautela, porque o início do ano costuma reunir registros pendentes e casos em investigação laboratorial. Além disso, o monitoramento depende de tempo de coleta, processamento e classificação final. Ainda assim, o volume inicial reforça que a circulação do vírus permanece como risco concreto, especialmente em áreas historicamente vulneráveis ao Aedes aegypti.
No fechamento do período epidemiológico de 2025, a última semana contabilizada incorporou mais 769 casos em relação ao boletim anterior. Ao longo do ciclo 2025, o Paraná acumulou 305.594 notificações, 92.620 casos confirmados e 145 óbitos atribuídos à dengue. Esses números refletem carga expressiva sobre atenção básica, urgência e internações, além de impacto indireto em produtividade e afastamentos. Em saúde pública, alta incidência amplia pressão sobre leitos e sobre vigilância de óbitos.
A distribuição municipal mostrou heterogeneidade: 398 municípios tiveram notificações e 387 registraram confirmações. Doze cidades não tiveram casos em 2025: Agudos do Sul, Campo do Tenente, Coronel Domingos Soares, Doutor Ulysses, Godoy Moreira, Goioxim, Itaperuçu, Quitandinha, Fernandes Pinheiro, Paulo Frontin, Porto Vitória e Rio Azul. Entre elas, Fernandes Pinheiro não teve sequer notificação. Esse padrão sugere diferenças de exposição, clima, urbanização e efetividade local de controle.
As regionais de saúde com maiores números de casos confirmados no período epidemiológico 2025 foram: 17ª RS Londrina (22.653), 14ª RS Paranavaí (13.031), 15ª RS Maringá (11.577), 19ª RS Jacarezinho (6.705) e 12ª RS Umuarama (5.350). Esse mapa orienta priorização de ações: intensificação de visitas, controle vetorial, comunicação dirigida e capacidade de resposta clínica. Em vigilância, foco territorial é essencial para eficiência.
O informe também detalha outras arboviroses transmitidas pelo Aedes aegypti. Em 2025, foram confirmados 6.090 casos de chikungunya, com 8 óbitos, a partir de 11.560 notificações. Quanto ao zika, houve 207 notificações e nenhum caso confirmado no ano passado. A leitura conjunta é importante porque sintomas se sobrepõem e podem confundir triagem, exigindo protocolos clínicos e laboratoriais bem alinhados, sobretudo em surtos simultâneos.
A Sesa incluiu ainda dados de febre oropouche em 2025: 179 notificações e 150 casos confirmados. Do total, 147 foram classificados como autóctones, com destaque para Adrianópolis (144), além de Morretes (2) e Guaratuba (1). Houve ainda registros importados: Arapongas (ligado ao Espírito Santo) e Maringá (ligado a Minas Gerais). O padrão sugere foco geográfico específico, com necessidade de vigilância ampliada e investigação ambiental.
A febre oropouche é causada pelo vírus Orthobunyavirus oropoucheense (OROV) e transmitida principalmente pelo Culicoides paraensis, conhecido como maruim ou mosquito-pólvora. Isso importa porque o controle vetorial e o ambiente-alvo diferem do Aedes, exigindo estratégias próprias. Após picar pessoa ou animal infectado, o vetor pode transmitir o vírus a outras pessoas. Em 2025, a presença de casos autóctones reforçou a importância de diagnóstico diferencial e comunicação pública para reduzir atrasos.
Em 2026, até o momento descrito pela Sesa, não há registros de chikungunya, zika ou oropouche no Estado. Como o período é inicial e os dados da Semana 01 ainda estão em consolidação, qualquer afirmação de “tranquilidade” seria precipitada. A prioridade técnica é manter vigilância ativa, ampliar qualidade de notificação e acelerar confirmação laboratorial, especialmente em regiões com histórico de alta incidência. O novo ciclo epidemiológico começa com um recado: prevenção segue sendo a medida mais barata e mais eficaz.
Confira o boletim da dengue AQUI.
Comentário exclusivo
O Paraná entra em 2026 com um dado simbólico e duro: 2025 terminou com 92.620 casos confirmados e 145 mortes por dengue. Isso não é “sazonalidade normal”; é falha sistêmica de controle de risco em um ambiente urbano que oferece água parada, descarte irregular e alta densidade de mosquitos. A dengue já deixou de ser evento e virou infraestrutura do adoecimento. Quando o Estado precisa publicar números desse tamanho, o foco deveria mudar de “campanha” para “gestão permanente de risco”.
Os primeiros números de 2026 — 384 notificações e 10 confirmações até 7 de janeiro — ainda são pequenos, mas não devem ser subestimados. Em epidemiologia, começo de ano é zona de ruído: casos em investigação, subnotificação e atraso de laboratório. O que importa é tendência e velocidade de crescimento, não apenas o número absoluto. Se o vetor está ativo, poucos casos confirmados podem ser apenas a ponta. É como incêndio: fumaça não é pequena por ser pouca; é pequena por ter começado agora.
O dado de que doze municípios não registraram casos em 2025 é excelente para estudo de boas práticas. A pergunta técnica não é “por que eles tiveram sorte”, mas “o que eles fizeram diferente”: manejo de resíduos, cobertura de agentes, fiscalização, clima, urbanização, ou simplesmente subnotificação? Fernandes Pinheiro sem sequer notificação pode ser exemplar ou pode indicar baixa sensibilidade do sistema de vigilância local. Sem auditoria de notificação e busca ativa, um “zero” pode esconder casos não detectados e atraso em resposta.
As regionais líderes em casos confirmados — Londrina, Paranavaí, Maringá, Jacarezinho e Umuarama — deveriam operar como territórios de foco com metas trimestrais claras: redução de índices entomológicos, tempo médio de investigação, proporção de casos com coleta adequada e taxa de internação. Sem metas e cobrança, boletim vira relatório e não instrumento de gestão. Em saúde pública moderna, indicador não serve para “informar”; serve para governar. Se o indicador não muda decisão, ele é apenas estatística bonita.
A coexistência de dengue, chikungunya e zika exige cuidado adicional, porque a clínica se sobrepõe e o erro diagnóstico custa caro. Chikungunya, com dor articular prolongada, gera incapacidade e demanda reabilitação. Dengue pode evoluir para formas graves rapidamente. Zika, mesmo com baixa confirmação, exige atenção por consequências específicas, especialmente em gestantes. Quando a rede não está preparada, o pronto atendimento vira triagem por intuição. E intuição não é protocolo. Precisamos de fluxos clínicos, laboratório e comunicação rápida.
O oropouche é um alerta estratégico: nem toda febre é dengue, e nem todo vetor é Aedes. Quando 150 casos são confirmados, com predominância autóctone em Adrianópolis, a vigilância precisa integrar ambiente, entomologia e assistência. A lição de 2025 deveria ser simples: a prevenção funciona quando vira rotina e responsabilidade compartilhada. Enquanto isso não ocorrer, seguiremos contando mortos e lotando unidades. E dengue não deveria ser normalizada. Normalizar é aceitar que pessoas morram por água parada e gestão fraca.
Por Pr. Rilson Mota
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