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Sem picanha e agora sem andar de avião: Dorothy volta para o Kansas

Rilson Mota por Rilson Mota
3 de janeiro de 2025
em Brasil, Tecnologia
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Sem picanha e agora sem andar de avião: Dorothy volta para o Kansas

(Foto: Fabio Motta/Estadão)

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Por Pr. Rilson Mota

Passagens aéreas em 2025: dólar alto, empresas endividadas e um cenário econômico que afasta o consumidor dos céus.

O sonho de viajar de avião, outrora acessível a muitos brasileiros, está se tornando um luxo novamente. Em 2025, com o dólar ultrapassando R$ 6,00 e as companhias aéreas lutando para sobreviver sob o peso de dívidas acumuladas, o preço das passagens deve registrar aumentos significativos, impactando diretamente o bolso do consumidor.

A Tempestade Perfeita: Dólar em Alta e Dívidas Persistentes

O setor aéreo brasileiro enfrenta uma das piores combinações possíveis: um câmbio desfavorável e um histórico recente de endividamento elevado. Aproximadamente 60% dos custos das companhias aéreas estão atrelados ao dólar, incluindo despesas com combustível, leasing de aeronaves e manutenção. A moeda americana, que começou 2024 em R$ 4,84, chegou ao final do ano valendo R$ 6,18, uma alta de 27% em apenas 12 meses.

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Adicione-se a isso a herança pesada da pandemia de Covid-19. Empresas como Gol e Azul ainda tentam se reerguer após renegociações de débitos com credores e processos de recuperação judicial. “A pressão do câmbio está nos forçando a repensar toda a estrutura de preços”, afirma Mateus Pongeluppi, vice-presidente de estratégia da Gol.

O Impacto no Consumidor: Quem Pode Voar em 2025?

Para o consumidor, isso significa tarifas mais altas e uma experiência de compra ainda mais segmentada. Especialistas projetam um aumento médio de 8% nas passagens em 2025, com as maiores altas concentradas em bilhetes de última hora ou em rotas internacionais.

“Quem paga R$ 300 por um voo doméstico sentirá um impacto menor, mas o cliente corporativo ou aquele que adquire passagens de última hora verá aumentos consideráveis”, explica Pongeluppi. A lógica é simples: enquanto as companhias precisam manter aviões cheios para equilibrar custos, é o passageiro de maior poder aquisitivo que acaba absorvendo os reajustes mais expressivos.

Alta Eficiência, Margens Estreitas e Fôlego Limitado

Embora a modernização da frota, com a introdução de aeronaves mais eficientes, ajude a reduzir os custos operacionais, essa medida não é suficiente para compensar os impactos do câmbio desfavorável. Alexandre Malfitani, vice-presidente de finanças da Azul, reforça que “as tarifas serão ajustadas para garantir a viabilidade do setor”.

A estratégia de sobrevivência das companhias passa pela busca incessante de eficiência, mas há um limite. “Perder margem é a última opção para as empresas”, afirma Pongeluppi. Com os níveis de endividamento ainda elevados, sacrificar lucros em um cenário de incerteza cambial é algo inviável para o setor.

Perspectivas para o Mercado Internacional

No segmento internacional, a situação é ainda mais delicada. Companhias estrangeiras, como a Air France-KLM, também enfrentam pressões semelhantes. “Precisamos de aviões cheios para sermos lucrativos. As tarifas estão estabilizadas em um patamar alto, e a ambição é mantê-las assim”, diz Manuel Flahault, diretor-geral do grupo na América do Sul.

Essa dinâmica reflete um mercado em que as viagens internacionais, especialmente para destinos na Europa e América do Norte, devem se tornar ainda mais exclusivas em 2025.

O Cenário Econômico Mais Amplo

O aumento das passagens aéreas não pode ser analisado isoladamente. Ele reflete uma conjuntura econômica marcada por inflação persistente, crescimento lento e um câmbio volátil. O real desvalorizado não apenas impacta o setor aéreo, mas amplia o custo de vida em diversos setores, afetando diretamente o poder de compra dos brasileiros.

O Retorno ao Kansas: Um Retrocesso Social?

Nos últimos anos, o setor aéreo foi democratizado, com mais brasileiros acessando viagens de avião. Contudo, o atual cenário representa um retrocesso significativo. “Voltamos ao tempo em que voar era privilégio de poucos”, critica Alberto Valerio, analista de transporte e construção do UBS BB.

Enquanto isso, as perspectivas de curto prazo não são animadoras. A recuperação da economia depende de políticas fiscais consistentes, mas o governo enfrenta dificuldades para equilibrar as contas públicas sem comprometer investimentos.

Conclusão: Um Setor em Busca de Sustentabilidade

O ano de 2025 será um teste de resiliência para as companhias aéreas e, inevitavelmente, para os consumidores. A combinação de dólar elevado, custos crescentes e demanda fragilizada impõe desafios que exigem criatividade e estratégia para evitar um colapso no setor.

Para os brasileiros, a realidade é clara: voar em 2025 será mais caro, mais exclusivo e, para muitos, mais distante do que nunca. Dorothy, afinal, parece estar voltando ao Kansas. E o céu, que antes prometia liberdade, agora reflete as dificuldades de um país em busca de equilíbrio econômico.

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