Brasília, 21 de janeiro de 2026
Por Redação Econômica
O mercado financeiro brasileiro amanheceu sob o impacto de mais um capítulo dramático na dissolução do Grupo Master. O Banco Central do Brasil (BC) decretou, na manhã desta quarta-feira (21), a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A., braço de crédito e investimento controlado pelo Banco Master Múltiplo. A decisão, publicada oficialmente pela autarquia, marca o colapso definitivo de uma das últimas operações ativas do conglomerado, que já vinha respirando por aparelhos desde o final do ano passado. A medida drástica foi tomada após a constatação de insolvência irrecuperável e o comprometimento severo da saúde financeira da instituição, que não conseguiu honrar seus compromissos imediatos.
A intervenção regulatória ocorre em um contexto de deterioração acelerada. O Banco Master S/A, instituição líder do grupo, já havia sofrido intervenção e liquidação extrajudicial em 18 de novembro de 2025. Desde então, o Banco Master Múltiplo operava sob o Regime Especial de Administração Temporária (RAET), uma tentativa de “respiração artificial” concedida pelo regulador para tentar salvar ativos saudáveis e proteger os depositantes. A expectativa era que a Will Financeira pudesse ser blindada do contágio tóxico da matriz, preservando sua operação de crédito ao consumidor, mas a realidade contábil se impôs de forma brutal.
O estopim para a decisão final foi o calote operacional registrado no início desta semana. Segundo o comunicado do Banco Central, a Will Financeira falhou em cumprir a grade de pagamentos junto à bandeira Mastercard no dia 19 de janeiro de 2026. Esse descumprimento contratual gerou o bloqueio imediato da instituição no arranjo de pagamentos, paralisando suas operações de cartões e fluxo de caixa. Sem acesso à rede de pagamentos e com a reputação destruída, a continuidade da financeira tornou-se tecnicamente impossível, forçando o regulador a puxar a tomada para estancar a sangria.
O Grupo Master, embora classificado como de porte pequeno no segmento S3 da regulação prudencial, detinha uma fatia de 0,57% dos ativos totais do Sistema Financeiro Nacional. Pode parecer pouco em percentuais, mas em valores absolutos representa bilhões de reais em depósitos, carteiras de crédito e obrigações. A queda de um player desse porte, mesmo que não seja sistêmico como os grandes bancos de varejo, gera ruídos significativos na confiança do mercado de crédito médio e acende o alerta para a supervisão de outras instituições de nicho que operam com modelos de negócio similares.
A liquidação extrajudicial é o instrumento mais severo do arsenal do Banco Central, funcionando como o decreto de óbito da pessoa jurídica financeira. O objetivo primário é promover a saída organizada da instituição do sistema, minimizando danos aos credores e evitando o contágio de risco para outros bancos. Com a medida, a administração da Will Financeira é imediatamente afastada, e um liquidante nomeado pelo BC assume o controle para levantar ativos, verificar passivos e iniciar o processo de pagamento dos credores, seguindo a hierarquia legal de preferências.
A decisão também tem implicações diretas e imediatas sobre o patrimônio dos responsáveis pela gestão temerária. Conforme determina a legislação bancária (Lei 6.024/74), os bens dos controladores e ex-administradores da Will Financeira e do Banco Master ficam indisponíveis. Essa trava legal visa garantir que, caso sejam comprovadas fraudes, desvios ou gestão fraudulenta, o patrimônio pessoal dos banqueiros possa ser utilizado para cobrir, ainda que parcialmente, o rombo deixado nas contas da instituição e os prejuízos causados a terceiros.
O Banco Central foi enfático ao afirmar que continuará as apurações para identificar responsabilidades civis, administrativas e penais. O histórico recente do Banco Master, marcado por crescimento agressivo e operações estruturadas complexas, já vinha sendo monitorado com lupa pelo mercado. A falha na tentativa de salvar a Will Financeira sob o regime de RAET demonstra que o buraco nas contas era mais profundo do que as auditorias iniciais poderiam ter sugerido, ou que a contaminação cruzada entre as empresas do grupo era irreversível.
Para os clientes da Will Financeira, o cenário é de incerteza e apreensão. Embora o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) cubra depósitos de até R$ 250 mil por CPF em casos de liquidação, o processo burocrático para o recebimento desses valores pode levar algum tempo. Além disso, clientes com investimentos acima desse teto ou com produtos não cobertos pelo FGC enfrentam a perspectiva real de perdas significativas, entrando na fila de credores da massa falida, onde a recuperação total do capital é historicamente rara.
O caso expõe a fragilidade de modelos de negócios bancários baseados em alavancagem excessiva e crescimento a qualquer custo. O Banco Master tentou se posicionar como um player agressivo no mercado de crédito e investimentos, muitas vezes oferecendo taxas acima da média para captar recursos. Essa estratégia, comum em instituições que buscam ganhar market share rapidamente, cobra seu preço quando a liquidez seca ou quando a qualidade da carteira de crédito se deteriora, criando um descasamento fatal entre ativos e passivos.
A crise no Master também levanta questões sobre a eficácia da supervisão preventiva. Embora o BC tenha agido, o fato de a situação ter chegado ao ponto de insolvência total sugere que os mecanismos de alerta precoce podem precisar de recalibragem para instituições do segmento S3. O mercado agora observa com atenção se haverá “efeito dominó” em outras financeiras médias, que podem sofrer com saques e desconfiança por parte dos investidores institucionais e do varejo, avessos ao risco de crédito bancário neste momento.
A liquidação da Will Financeira encerra um ciclo de tentativas frustradas de reestruturação do grupo. A aposta de que seria possível isolar a parte “boa” do banco da parte “podre” falhou miseravelmente. A interconexão financeira e operacional entre controladora e controlada provou-se fatal. O episódio serve como um case clássico de risco de contágio intragrupo, onde a falência da nave-mãe arrasta consigo todas as subsidiárias, independentemente de sua saúde operacional individual momentânea.
Por fim, o episódio deixa uma lição amarga para o investidor brasileiro: rentabilidade alta sempre carrega risco elevado. A busca por retornos acima do CDI em instituições de menor porte exige uma análise de crédito rigorosa que o investidor comum raramente faz. Com a indisponibilidade de bens decretada e a liquidação em curso, inicia-se agora a longa batalha jurídica e contábil para apurar o tamanho real do prejuízo e quem pagará a conta final dessa aventura financeira mal-sucedida.
Comentário Analítico : A Anatomia de um Cadáver Financeiro e o Custo da Ganância
Brasil, o que estamos presenciando com o Banco Master e sua subsidiária Will Financeira não é um acidente de percurso; é a crônica de uma morte anunciada, escrita com a tinta vermelha da alavancagem irresponsável. Quando o Banco Central decreta liquidação extrajudicial, ele não está apenas fechando portas; está assinando o atestado de óbito de uma gestão que confundiu ousadia com imprudência. O “choque institucional” aqui é, na verdade, o sistema imunológico do mercado (o regulador) eliminando um vírus (a insolvência) antes que ele infecte o organismo inteiro. A falha em pagar a Mastercard foi apenas o último suspiro de um paciente que já estava em morte cerebral financeira desde novembro.
A confusão institucional que permeia o caso Master é um reflexo clássico de estruturas corporativas opacas, desenhadas mais para esconder passivos do que para gerar valor real. A tentativa de manter a Will Financeira viva sob RAET foi uma aposta de que o câncer não tinha metástase, mas o mercado financeiro não perdoa diagnósticos errados. O que vemos é a implosão de um modelo de “banco de investimento” que operava com a mentalidade de cassino: captando caro para emprestar para quem não podia pagar, ou pior, para financiar operações estruturadas de qualidade duvidosa dentro do próprio grupo econômico.
Para o correntista e o investidor, a mensagem é brutal: não existe almoço grátis. Aqueles CDBs com taxas maravilhosas, muito acima do mercado, não eram generosidade do banqueiro; eram o prêmio de risco de uma instituição desesperada por liquidez. Agora, o investidor de varejo vai conhecer a burocracia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Vai receber? Provavelmente, até o limite de 250 mil reais. Mas o custo de oportunidade do dinheiro parado e o estresse emocional são prejuízos que nenhum fundo cobre. E para quem tinha mais que o limite garantido? Bem-vindo à fila da massa falida, onde se recuperam centavos por cada real investido, se tiver sorte.
A corrupção, ou no mínimo a “gestão fraudulenta” (termo técnico elegante para roubo de colarinho branco), é quase sempre o subtexto dessas liquidações. O bloqueio de bens dos controladores é a medida padrão, mas sejamos realistas: banqueiros que levam suas instituições à falência raramente mantêm seu patrimônio em nome próprio ou em jurisdições alcançáveis pelo braço da lei brasileira. O dinheiro “inteligente” já voou para paraísos fiscais muito antes do fiscal do BC bater na porta. O que sobra para ser indisponibilizado são as migalhas, os imóveis de fachada e os carros de luxo que não cobrem 1% do rombo.
O impacto na credibilidade do sistema é corrosivo. Cada vez que um banco médio quebra dessa forma, a desconfiança se espalha como uma praga sobre todo o segmento de bancos médios e fintechs. O investidor institucional, escaldado, fecha a torneira do crédito interbancário para instituições menores. Isso cria uma crise de liquidez artificial para bancos saudáveis que, por azar, operam no mesmo nicho do falido. O “efeito Master” vai encarecer o funding para todo o sistema S3 e S4, prejudicando a competição bancária no país.
A falha no pagamento à Mastercard é um detalhe técnico que revela a profundidade do poço. Quando um banco não consegue honrar a liquidação diária de cartões, significa que o caixa está zerado, seco, árido. É o equivalente corporativo a ter o cartão recusado na padaria por falta de saldo. Isso expõe que a “administração temporária” não tinha o que administrar; estava apenas velando um corpo sem vida. A insolvência era tão aguda que nem o fluxo de caixa operacional de curto prazo existia mais.
As consequências jurídicas serão longas e penosas. Veremos anos de litígios, acusações de desvio de finalidade, operações simuladas e maquiagem de balanço. O Ministério Público entrará em cena, haverá denúncias criminais, mas a justiça financeira no Brasil é lenta. Enquanto isso, os ex-controladores contratarão as bancas de advogados mais caras do país — pagas, ironicamente, com o dinheiro que foi drenado da instituição antes da quebra — para protelar qualquer sentença definitiva até a prescrição.
Para o mercado, fica a lição de due diligence. O Banco Master cresceu rápido demais, apareceu demais, patrocinou demais. No mercado financeiro, quem faz muito barulho geralmente está tentando desviar a atenção dos fundamentos fracos. A solidez bancária é silenciosa; o desespero por captação é barulhento. Quem ignorou os sinais de fumaça (balanços complexos, crescimento inexplicável, taxas fora da curva) acabou queimado no incêndio.
O papel do Banco Central, embora correto na liquidação, será questionado quanto ao timing. Por que demorou tanto? Por que permitiu que a Will Financeira operasse meses a mais sob uma controladora já liquidada? Essas perguntas incomodam porque sugerem que a supervisão pode ter sido leniente ou lenta demais para detectar a podridão no cerne do conglomerado. A regulação prudencial falhou em antecipar o tamanho do buraco, agindo apenas quando o colapso já era fato consumado.
Por fim, Brasil, o caso Master/Will Financeira é um lembrete de que o capitalismo sem falência é como o catolicismo sem inferno. A liquidação é dolorosa, mas necessária para purgar o sistema dos maus alocadores de capital. O dinheiro que foi destruído nessa aventura não volta mais. Resta aos sobreviventes a sabedoria de entender que, no mercado financeiro, quando a esmola é demais, o santo não apenas desconfia — ele saca o dinheiro e corre para o Tesouro Direto.
Por Pr. Rilson Mota
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