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Após rastro de destruição, Simepar vai a campo para “medir” tornado em São José dos Pinhais

Rilson Mota por Rilson Mota
11 de janeiro de 2026
em Paraná, Tecnologia
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Após rastro de destruição, Simepar vai a campo para “medir” tornado em São José dos Pinhais

Foto: Simepar

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São José dos Pinhais , 11 de janeiro de 2026

O Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) iniciou a avaliação técnica do tornado que atingiu São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, na tarde de sábado (10). O fenômeno foi registrado no bairro Guatupê e, desde então, equipes do órgão passaram a coletar informações para caracterizar o evento. Na manhã de domingo (11), dois meteorologistas foram ao município para ampliar a base de dados e consolidar a análise.

O objetivo do trabalho é enquadrar a intensidade do tornado na Escala Fujita (F0 a F5), que classifica eventos conforme o padrão de danos compatíveis com a velocidade do vento. A escala é a mesma utilizada em Rio Bonito do Iguaçu, onde o Simepar confirmou em novembro um tornado F4, um dos níveis mais elevados do sistema. No caso de São José dos Pinhais, o nível ainda não foi divulgado, pois depende da leitura de campo e da correlação com evidências instrumentais.

Segundo a Defesa Civil Estadual, o tornado atingiu 350 residências e impactou cerca de 1.200 pessoas. Duas casas tiveram moradores desalojados, que foram para casa de familiares. Duas pessoas apresentaram ferimentos leves e foram encaminhadas a unidades de saúde. Além de telhados danificados, houve queda de árvores e falhas na rede de energia, o que demandou atuação conjunta de órgãos de resposta, assistência e restabelecimento de infraestrutura.

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No primeiro momento, o acompanhamento do Simepar ocorreu por meio de seus radares meteorológicos, que permitem identificar assinaturas de tempestades severas e padrões de rotação associados a tornados. Esse monitoramento remoto, porém, não substitui a verificação em solo. Por isso, a avaliação técnica combina dados do radar com observação direta do “corredor de danos”, etapa essencial para diferenciar tornado de rajadas retas (downburst) e outros fenômenos convectivos.

A operação inclui também a participação da equipe de Geointeligência, que realizou sobrevoo com drone equipado com sensor, mapeando com precisão a área atingida. Esse tipo de levantamento produz ortomosaicos e modelos de terreno que ajudam a identificar a continuidade do rastro, a largura do corredor e a distribuição espacial dos danos. Em meteorologia forense, a geometria do dano é uma peça-chave para a classificação e para reduzir erros de diagnóstico.

Em terra, os meteorologistas percorrem o trajeto do tornado para coletar evidências sobre extensão, padrão e severidade. Entre os indicadores observados estão o tipo de destelhamento, colapso parcial de estruturas, arrancamento de árvores, deformações em postes e a distância de arremesso de objetos. Esses sinais são comparados com critérios da Escala Fujita, que se baseia em “indicadores de dano” e “graus de dano” para aproximar a velocidade do vento.

O Simepar também fará entrevistas com moradores e analisará imagens, inclusive de câmeras de monitoramento da região, para reconstruir o comportamento do vento no tempo e no espaço. Relatos sobre direção, ruído, duração e mudança abrupta de pressão podem reforçar a caracterização, mas não substituem evidência física. A regra técnica é cruzar testemunhos com marcas materiais e com dados instrumentais para evitar interpretações precipitadas ou superestimação do evento.

O meteorologista Leonardo Furlan, citado na operação, explicou que o trabalho em campo permite confirmar se os dados realmente se associam a um tornado e, então, classificá-lo. Esse procedimento é padrão porque tornados podem causar danos intensos em faixas estreitas, enquanto outras tempestades provocam estragos amplos e menos lineares. A distinção é relevante para estatística de risco, planejamento urbano e protocolos de Defesa Civil, especialmente em áreas densamente povoadas.

A classificação final tende a orientar medidas posteriores, como atualização de mapas de risco e recomendações de prevenção. Em termos práticos, identificar a intensidade ajuda a calibrar códigos construtivos e estratégias de contingência: telhados, fixação de estruturas leves, poda preventiva e gestão da rede elétrica. Também apoia comunicação pública, evitando tanto alarmismo quanto minimização de eventos severos, que podem se repetir em condições atmosféricas semelhantes.

No curto prazo, as prioridades seguem sendo assistência às famílias, reparo de energia e remoção de árvores. A Defesa Civil Estadual informou o envio de 2,6 mil telhas para apoiar a recuperação emergencial. Em episódios com vento extremo, a vulnerabilidade maior costuma estar em coberturas e edificações leves. A recomposição rápida protege contra chuva subsequente e reduz risco sanitário, mofo e perdas adicionais de bens, especialmente em bairros com maior exposição.

O caso reforça a necessidade de integração entre monitoramento e resposta. Sistemas de radar identificam tempestades severas, mas a proteção efetiva depende de alertas compreensíveis, rotas seguras e abrigo adequado. A avaliação do Simepar, ao detalhar o corredor e a intensidade, também ajuda a ajustar a comunicação futura: quando se sabe como o evento se comportou, é possível orientar a população sobre sinais prévios e medidas imediatas de autoproteção.

A conclusão técnica do enquadramento na Escala Fujita ocorrerá após a consolidação de todos os dados de campo, imagens e registros instrumentais. Até lá, o Simepar mantém a análise em curso para assegurar que a classificação reflita evidências verificáveis. Em eventos meteorológicos severos, precisão importa: ela direciona investimento público, aprimora alertas e, no fim, salva vidas ao transformar um episódio extremo em aprendizado operacional para a próxima tempestade.


Comentário exclusivo

A avaliação do Simepar é um exemplo de “meteorologia forense”: não basta ver destruição e chamar de tornado. É necessário provar pelo padrão de dano e pela coerência com dados de radar. Tornados deixam assinatura estreita, com faixa definida e, muitas vezes, rotação que muda direção de queda de árvores e de detritos. Rajadas retas derrubam tudo em uma direção dominante. Essa distinção não é acadêmica: ela muda mapa de risco, seguros, protocolos de alerta e o tipo de obra que precisa ser reforçada.

A Escala Fujita não mede vento diretamente; ela infere velocidade a partir do que foi destruído e de como foi destruído. Por isso, o levantamento em solo é decisivo: avaliar fixação de telhas, tipo de estrutura, qualidade de materiais e grau de manutenção. Uma casa mal ancorada pode colapsar com vento menor do que outra bem construída. O risco de erro é superestimar a intensidade quando o parque construtivo é frágil. O método precisa controlar esse viés com indicadores padronizados.

O uso de drone com sensor e geointeligência é uma evolução importante, porque substitui “impressões” por métricas. Com ortomosaico, é possível medir largura do corredor, continuidade do rastro e gradiente de danos. Em tornados, é comum ver alternância de dano severo e moderado em poucos metros, por vórtices internos. Esse padrão aparece melhor de cima. Além disso, o drone documenta rapidamente antes da limpeza e reparos apagarem evidências, algo crítico quando a cidade começa a reconstruir no dia seguinte.

O radar ajuda a identificar tempestades com rotação, mas nem toda rotação vira tornado e nem todo tornado é bem capturado. A altitude do feixe, obstáculos e distância do radar podem esconder o sinal. Por isso, o “casamento” entre radar e corredor de danos é o que dá confiança. Quando as duas evidências convergem, a classificação fica robusta. Quando divergem, a equipe precisa considerar alternativas: microexplosão, downburst, gust front, ou até múltiplos vórtices curtos associados à mesma célula convectiva.

Os números da Defesa Civil — 350 residências e 1.200 pessoas — mostram o custo social, mas também apontam um ponto técnico: vulnerabilidade concentrada em coberturas leves. Tornados e rajadas severas costumam arrancar telhas antes de derrubar paredes, e isso expõe a casa à chuva subsequente. A resposta com 2,6 mil telhas é correta na lógica de redução de danos secundários. Porém, reconstruir igual ao que falhou mantém risco. O ideal é exigir fixação reforçada e amarração padronizada na reposição.

Para o morador comum, a classificação (F0, F1, F2…) parece curiosidade, mas ela deveria virar regra de prevenção. Se a região registrou tornado, a discussão precisa evoluir para “o que fazer diferente”: reforço de telhado, abrigo interno, plano familiar, e alerta por sirene ou celular. Em eventos de vento extremo, a orientação mais eficaz é buscar o cômodo mais interno, longe de janelas, e evitar áreas com árvores. O alerta precisa ser objetivo e acionável.

O Paraná tem histórico de tempestades severas, e a confirmação de eventos fortes, como o F4 em Rio Bonito do Iguaçu, indica que o risco não é teórico. Isso exige planejamento de longo prazo: rede elétrica com poda e redundância, normas de construção para coberturas, e educação pública para reconhecer sinais de tempestade severa. Não é “pânico”: é gestão de risco. O custo de preparar é menor do que o custo de reconstruir. E a diferença aparece em vidas e patrimônio.

A divulgação final do enquadramento deve vir acompanhada de transparência metodológica: mapas do corredor, indicadores usados, fotos comparativas e limitações do dado. Isso aumenta confiança pública e evita circulação de versões infladas ou minimizadas. Também ajuda imprensa e Defesa Civil a comunicarem com precisão. Tornado é evento raro, mas não impossível. A melhor entrega do Simepar não é apenas um número na Fujita; é transformar o episódio em protocolo replicável de alerta, construção e resposta rápida.

Por Pr. Rilson Mota

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