Curitiba,19 de janeiro de 2026
A integração entre forças de segurança do Paraná, com emprego estratégico de cães policiais, resultou na retirada de quase 150 toneladas de drogas de circulação em 2025. O volume consolidado, somando apreensões da Polícia Militar do Paraná (PMPR) e da Polícia Civil do Paraná (PCPR), chegou a 149,8 toneladas, número que representa aumento de 160,8% em relação a 2024, quando foram registradas 57,4 toneladas. O salto reforça a cinotecnia como ferramenta operacional de alta eficiência.
O resultado foi atribuído à atuação coordenada entre a Companhia Independente de Operações com Cães (CIOC), da PMPR, e o Núcleo de Operações com Cães (NOC), da PCPR. Na avaliação das corporações, o uso de equipes K9 fortalece a capacidade de detecção em abordagens, fiscalizações e ações de cumprimento de mandados, sobretudo em rodovias e pontos de passagem. Na prática, o faro amplia a chance de localizar ilícitos ocultos em compartimentos, cargas e veículos.
O balanço geral aponta também 2.056 prisões vinculadas às operações integradas no período, crescimento de 12,7% sobre as 1.825 detenções de 2024. Embora prisões e apreensões não sejam medidas equivalentes de impacto, o aumento simultâneo sugere intensificação de abordagens e melhoria de eficiência em ações de interceptação. Para as forças de segurança, a meta central é interromper logística e reduzir capacidade de reposição de estoque pelos grupos criminosos.
A maconha concentrou o maior volume: o total apreendido saltou de 56 toneladas para 145,4 toneladas, alta de 159,5%. A leitura operacional é que a substância continua sendo o principal “fluxo” logístico por volume, exigindo foco em corredores rodoviários e fiscalização de cargas. Em paralelo, apreensões em grande quantidade também costumam indicar tentativas de abastecimento em escala, com rotas recorrentes e padrões de ocultação que podem ser mapeados ao longo do tempo.
No caso da cocaína, o volume interceptado chegou a 2,7 toneladas, crescimento de 128,3%. Por ser uma droga de maior valor por quilo, variações nesse indicador podem refletir tanto aumento de esforço de fiscalização quanto mudança nas rotas e na estratégia de transporte, que tende a usar cargas fracionadas e compartimentos mais sofisticados. A presença do faro canino pode reduzir a vantagem do ocultamento, elevando risco para o transportador.
Os números de haxixe e skank chamam atenção pelo crescimento percentual. O haxixe passou de 176,7 kg para 1,4 tonelada (alta de 720,1%), enquanto o skank totalizou 203 kg, com aumento de 838,1%. Percentuais elevados nesse tipo de substância podem ocorrer quando a base comparativa é menor, mas ainda assim indicam ampliação de capacidade de detecção e provável diversificação das mercadorias traficadas dentro do estado.
Além de entorpecentes, as operações com apoio de cães resultaram na apreensão unificada de 456 armas, alta de 97,4% frente às 231 do ano anterior. O recolhimento de munições também subiu, com 6.436 unidades, crescimento de 29,2% sobre 4.980 em 2024. Em termos de segurança pública, armas e munições são indicadores críticos porque funcionam como “infraestrutura” para violência letal, extorsão e domínio territorial de grupos criminosos.
O comandante da CIOC, capitão Marcelo Hoiser, destacou o vínculo operacional entre cão e condutor como componente decisivo do desempenho. Segundo ele, a parceria ultrapassa o aspecto tático e envolve confiança construída em treino e convivência. Na leitura das corporações, esse elo se traduz em precisão, disciplina e resposta rápida em cenários de alta pressão, do contato comunitário às ações de fiscalização. O objetivo declarado é interromper rotas logísticas do tráfico no território paranaense.
A delegada Ana Cristina Ferreira, chefe da Divisão Estadual de Narcóticos (Denarc) da PCPR, afirmou que o uso de cães de faro resulta de trabalho técnico rigoroso, com treinamento permanente e protocolos padronizados. Para ela, a cinotecnia potencializa eficiência no combate ao tráfico e se consolidou como ferramenta estratégica. Em operações de busca, o cão atua como sensor biológico altamente sensível, reduzindo tempo de varredura e aumentando taxa de acerto em locais de difícil inspeção visual.
No eixo financeiro, o balanço aponta apreensão de R$ 796,3 mil em espécie, alta de 185%, e um prejuízo estimado de R$ 522,1 milhões às organizações criminosas. Mesmo quando estimativas exigem cautela metodológica, a lógica é clara: atingir caixa e mercadoria reduz capacidade de reinvestimento, pagamento de logística e compra de armas. A eficácia de longo prazo, porém, depende de continuidade, investigação patrimonial e integração com o sistema de Justiça.
O desempenho é atribuído também ao treinamento desde cedo, baseado em associação de odores a recompensas lúdicas. Raças como Pastor Belga Malinois e Pastor Alemão são citadas como empregadas em múltiplas frentes, incluindo faro, busca e captura, com foco total na missão. Hoje, PMPR e PCPR somam cerca de 180 cães, com previsão de incorporar mais 20 em 2026. Parte deles participa do programa K9, vivendo com policiais para fortalecer vínculo e disciplina.
Os resultados de 2025 indicam que a política de emprego de cães não é acessório, mas multiplicador de capacidade. Ainda assim, o impacto duradouro exige que apreensão seja conectada a inteligência: mapear rotas, identificar financiadores, romper cadeias de fornecimento e converter flagrantes em investigações estruturadas. O faro encontra a carga, mas a política pública precisa alcançar o comando. É nesse ponto que números robustos podem se transformar em redução efetiva da violência e da economia do crime.
Comentário exclusivo
O número de 149,8 toneladas não é só estatística; é sinal de capacidade operacional e de foco em logística. Mas há um cuidado: quantidade apreendida mede esforço e oportunidade, não necessariamente redução de consumo. O que a apreensão faz, de forma mais consistente, é aumentar custo e risco da cadeia do tráfico. Quando esse custo sobe, o crime precisa ajustar rota, pagar mais, corromper mais ou fracionar carga. Isso já é vitória tática — desde que haja continuidade e adaptação do Estado.
O salto de 160,8% em um ano sugere três hipóteses combinadas: mais operações, melhor seleção de alvos e maior eficácia de detecção. O K9 entra como “sensor” que reduz a vantagem do ocultamento. Em rodovias, o faro encurta tempo de abordagem e aumenta assertividade, o que melhora produtividade e reduz aleatoriedade. Porém, o verdadeiro ganho estratégico nasce quando cada apreensão alimenta inteligência: placa, rota, motorista, empresa, origem, destino, padrão. Sem isso, vira enxugar gelo bem-feito.
Os aumentos em haxixe e skank, apesar de chamativos, precisam ser interpretados com maturidade estatística: bases menores fazem percentuais explodirem. Ainda assim, há um recado operacional: o tráfico está diversificando oferta e tentando explorar nichos mais rentáveis. Isso exige que a polícia também diversifique capacidade: não só interceptar volume (maconha), mas interceptar valor (cocaína, derivados e sintéticos). O K9 ajuda, mas não substitui perícia, inteligência financeira e investigação digital, que hoje sustentam os mercados.
A apreensão de 456 armas é talvez o dado mais sensível para impacto social. Drogas geram caixa; armas geram domínio. Quando armas e munições saem de circulação, cai a capacidade de coerção de facções e aumenta a chance de o Estado recuperar territórios sem escalada de violência. Mas é crucial conectar armas a rastreio: origem, desvio, rotas e compradores. Numeração, lote, tipo de munição e padrão de apreensão podem revelar rede, não só episódio isolado.
O valor de R$ 522,1 milhões de prejuízo estimado ao crime é útil como narrativa de impacto, mas precisa de metodologia transparente para não virar propaganda. O que realmente asfixia o crime é confisco efetivo com sentença e recuperação de ativos, não apenas estimativa. O dado de R$ 796,3 mil em espécie apreendido aponta esforço, mas o mercado do crime já opera com digitalização e lavagem sofisticada. A próxima fronteira é cripto, laranjas, empresas de fachada e logística fiscal.
O programa K9, com cães vivendo com policiais, pode aumentar disciplina e vínculo, mas também exige governança: bem-estar animal, carga de trabalho, controle veterinário, critérios de aposentadoria e reposição. Cão de serviço é ativo sensível. O desempenho operacional não pode vir à custa de exaustão do animal ou de improviso de treinamento. Se o Estado quer ampliar em 2026, precisa manter padrão técnico e auditoria interna, para proteger resultados e reputação.
A pergunta decisiva é: como transformar apreensão em redução de violência? A resposta é integração real com Ministério Público, Judiciário, Receita e unidades de inteligência. O faro encontra a carga; a investigação precisa encontrar o dono. Se o Paraná usar essas operações para mapear rotas, prender financiadores e bloquear patrimônio, o impacto pode ser estrutural. Se ficar só no flagrante, as facções ajustam e seguem. O Estado precisa correr mais rápido que a adaptação do crime — e 2025 mostrou que isso é possível.
Por Pr. Rilson Mota
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