Duas mulheres de Curitiba se uniram e denunciaram um homem, a quem chamam de ‘Don Juan’, por aplicar golpes contra elas e, possivelmente, em outras mais. Elas estiveram na Delegacia da Mulher na noite da última sexta-feira (28), para oficializar a reclamação como vítimas. Um dos objetivos de elas exporem o caso é alertar outras mulheres e incentivar o comparecimento de mais vítimas à delegacia.
O suspeito se dizia estrangeiro, de Israel, e que estaria há oito anos no Brasil. Também afirmava ter Transtorno do Espectro Autista (TEA), para conseguir dinheiro para comprar medicamentos de uso contínuo.
A reportagem da Banda B conversou com as duas mulheres na manhã desta segunda-feira (31). A primeira, de 34 anos e mãe de dois filhos em idade escolar – a quem vamos aqui identificar como A -, relatou que conheceu o homem como passageira em uma corrida de aplicativo. Ele era o motorista, disse que não era brasileiro e que está no país para estudar. Disse ainda que pertence a uma comunidade judaica em Curitiba, onde prestaria serviços como editor de imagens.
“Quando começamos nosso relacionamento, ele tinha recém mudado de Curitiba para Ponta Grossa, a trabalho para essa comunidade judaica, e passou um período lá. Logo no início, começou a se queixar de dificuldades financeiras, porque essa comunidade não estaria fazendo os pagamentos corretamente”,
relatou A.
Foi aí que começaram as ajudas financeiras por parte dela. Segundo a mulher, tudo que ele precisava ela pagava, como combustível para o carro, alimentação, remédios, conserto do carro, dentista, entre outros. Ela conta que, inclusive, o ajudou a montar um computador importado para que pudesse trabalhar.
“Queria que ele tivesse uma renda independente do trabalho, já que ele falava que não estava tendo essa renda através da comunidade judaica.”
Irmã como álibi
O denunciado usava uma irmã como álibi, que validava todas as informações dadas por ele às namoradas e incentivava os pagamentos, com promessa de ressarcimento em breve, bem como as uniões entre os casais. O número do celular era realmente de Israel, mas as vítimas, porém, acreditam hoje que era ele mesmo quem respondia às mensagens. A vítima A conversava com a suposta parente dele por meio de um aplicativo de tradução.
A segunda vítima – a quem identificamos como B – começou a estudar a língua para poder se comunicar com a família do homem e conseguia conversar o hebraico básico. “Chegou um determinado momento que o perfil dela sumiu. Fiquei desconfiada, porque ele nunca dava uma justificativa. Sempre inventava uma desculpa, falava que ela devia ter trocado de número. Umas três desculpas no mínimo, mas nunca engoli direito”, relatou.
B conheceu o ‘Don Juan’ por meio de uma amiga em comum de ambos. Ele queria conhecer alguém para ter um relacionamento. Para esta amiga em comum, conta B, ele dizia estar fazendo intercâmbio e que só confiava nela no Brasil.
“Ele veio com uma conversa muito envolvente. Eu estava em um momento vulnerável, recentemente separada. Fui sendo envolvida na conversa, nos conhecemos, me apaixonei e foi se criando uma grande fantasia. Sempre havia uma conversa sobre casamento e comecei a imaginar minha vida em torno daquela promessa”, revela.
E, da mesma forma, toda a família de B foi envolvida durante um ano e quatro meses. “Claro que durante esse tempo algumas das promessas ele não conseguia sustentar e a pandemia favoreceu muito. Sempre adiando viagem pra conhecer a família. Inventou um autismo também.”
O diagnóstico de Espectro do Transtorno Autista
A vítima A conta que o homem chegou a ir a um médico de Curitiba para validar um laudo de TEA em hebraico, e conseguiu. Ele passou a ter acesso a medicamentos caros, em torno de R$ 500 e consulta de mais R$ 500, tudo pago pela vítima. Com o documento garantido ele ainda conquistou vários benefícios do governo, como isenção de IPVA, por exemplo.
O denunciado voltou a morar em Curitiba e foi quando a vítima A começou a suspeitar e a investigar. Até que descobriu que o telefone da susposta irmã não era mais dela e sim de uma brasileira.
“Ela disse que não fui a única a entrar em contato com aquele número e passou o telefone de outra moça. Ela se deu conta que também era vítima. Terminei dia 17 de janeiro e a encontrei dia 23. Fui na casa dela enquanto ele estava lá, com a polícia. Chegando lá, a PM verificou os documentos falsos”,
contou A.
O homem seria de Torres, no Rio Grande do Sul. Ele não foi preso na ocasião. Segundo A, a PM alegou que não se trataria de um flagrante por ele não estar apresentando documento em local público. Ela contou ainda que, com o nome verdadeiro dele, conseguiu entrar em contato com a família do denunciado. O homem seria casado e teria um filho, diagnosticado com espectro autista.
“Ela está nos apoiando, está do nosso lado. Disseram que ele sempre cometeu vários crimes, desde a adolescência, e nunca foi denunciado. Chegou a falsificar, diploma, cheques, documentação como professor de francês, para poder exercer a profissão em uma escola. É um falsificador de carreira.”
A reportagem da Banda B entrou em contato com a delegacia responsável pelo caso e aguarda retorno.
Por: Carol Nery e Rafael Torquat/Banda B






