CURITIBA, 30 de janeiro de 2026 – O governador do Paraná, Ratinho Júnior, do PSD, defendeu publicamente nesta quarta-feira a concessão de um indulto para o ex-presidente Jair Bolsonaro, do PL. Bolsonaro foi recentemente condenado a vinte e sete anos e três meses de prisão por liderar uma trama golpista contra o Estado Democrático de Direito. Além do ex-mandatário, Ratinho também sugeriu clemência para os condenados pelos ataques ocorridos em Brasília no dia oito de janeiro de dois mil e vinte e três. A declaração gerou polêmica.
Durante uma entrevista concedida à CNN Brasil, o chefe do executivo paranaense argumentou que a medida seria necessária para pacificar o país. Ratinho classificou os envolvidos nos atos de vandalismo como criminosos que erraram, mas defendeu que a punição aplicada foi excessiva em comparação com outros episódios históricos. Ele comparou os ataques às sedes dos Três Poderes com invasões promovidas por militantes petistas à Assembleia Legislativa do Paraná, buscando relativizar a gravidade institucional dos atos golpistas ocorridos recentemente no território nacional.
A postura do governador paranaense expõe um racha profundo dentro do Partido Social Democrático, liderado nacionalmente por Gilberto Kassab. Enquanto Ratinho Júnior adota um discurso alinhado ao bolsonarismo, outras lideranças da legenda manifestam visões divergentes sobre o tema da anistia. O PSD, que atualmente ocupa ministérios estratégicos no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vive um dilema entre a lealdade à base governista e as pretensões eleitorais de seus governadores para o pleito de dois mil e vinte e seis.
O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que recentemente oficializou sua filiação ao PSD, compartilha da visão de Ratinho Júnior. Caiado já afirmou em diversas ocasiões que é favorável a uma anistia ampla e irrestrita, beneficiando inclusive o ex-presidente Bolsonaro. Para o goiano, a pacificação nacional passa obrigatoriamente pelo perdão judicial dos envolvidos nos eventos de janeiro. Essa ala do partido busca consolidar o apoio do eleitorado conservador, visando fortalecer uma candidatura viável de oposição ao atual governo federal brasileiro hoje.
Em sentido oposto, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, também do PSD, manifestou-se contrariamente à concessão de anistia. Leite considera que o perdão judicial para crimes contra a democracia seria prejudicial para o fortalecimento das instituições brasileiras. Embora admita discutir a dosagem das penas para aqueles que não planejaram o golpe, o gaúcho mantém uma postura mais rígida quanto à responsabilização criminal. Essa divergência interna dificulta a construção de uma narrativa unificada para o partido nacionalmente nos próximos meses.
Gilberto Kassab, presidente nacional da legenda, tenta equilibrar as diferentes correntes internas sob forte pressão de setores bolsonaristas. Em nota oficial divulgada em setembro, logo após a condenação de Bolsonaro, Kassab manifestou solidariedade ao ex-presidente e posicionou-se a favor da anistia. Essa movimentação é vista por analistas como uma tentativa de manter o PSD como uma força de centro capaz de dialogar com ambos os lados. Entretanto, a ambiguidade pode gerar desgastes na relação com o Palácio do Planalto.
A estratégia de Ratinho Júnior visa assegurar o apoio do eleitorado paranaense, onde Jair Bolsonaro mantém uma base de apoio sólida e engajada. Ao defender o indulto, o governador sinaliza para os conservadores que não abandonou as pautas da direita, apesar da participação de seu partido no governo Lula. Esse equilibrismo político é fundamental para suas pretensões de disputar a Presidência da República no próximo ano. Ratinho sabe que precisa do voto bolsonarista para avançar em uma eventual candidatura nacional.
Pesquisas recentes realizadas pelo instituto Paraná Pesquisas mostram um cenário eleitoral complexo para o próximo pleito presidencial. O atual presidente Lula aparece em primeiro lugar nos cenários de primeiro turno, mas enfrenta um empate técnico em simulações de segundo turno. Esse equilíbrio de forças incentiva governadores como Ratinho Júnior a buscarem diferenciação política imediata. A defesa de Bolsonaro torna-se, portanto, um ativo eleitoral valioso para quem deseja herdar o capital político deixado pelo ex-presidente, agora inelegível e condenado judicialmente.
O governo federal acompanha com lupa os movimentos das lideranças do PSD, partido que detém pastas como Agricultura e Desenvolvimento Regional. A fala de Ratinho Júnior é interpretada por setores do PT como uma afronta à coalizão de governo. Existe o temor de que o partido de Kassab utilize a estrutura ministerial para fortalecer candidaturas de oposição em dois mil e vinte e seis. A tensão entre o pragmatismo da governabilidade e a disputa eleitoral futura está cada vez mais evidente hoje.
Juridicamente, a proposta de indulto para crimes contra o Estado Democrático de Direito enfrenta resistências no Supremo Tribunal Federal. Ministros da corte já sinalizaram que o perdão presidencial não pode ser utilizado para blindar ataques diretos às instituições democráticas. Ratinho Júnior, ao propor a medida, entra em rota de colisão com o entendimento majoritário do Judiciário brasileiro. A discussão sobre a anistia deve dominar a pauta legislativa no Congresso Nacional, servindo como termômetro para a temperatura política nacional atualmente.
O governador paranaense insiste que a punição aos vândalos do oito de janeiro foi desproporcional em relação à natureza dos atos praticados. Ele defende que o tratamento jurídico deveria focar apenas no crime de vandalismo, ignorando as acusações de tentativa de golpe de Estado. Essa narrativa busca suavizar a imagem dos condenados perante a opinião pública conservadora. Para Ratinho, a justiça deve ser temperada com a necessidade política de encerrar os conflitos ideológicos que dividem a nação brasileira atualmente no país.
A disputa pela indicação interna no PSD promete ser acirrada entre Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite. Cada governador representa uma nuance diferente do centro político brasileiro, tentando atrair fatias específicas do eleitorado. A definição do nome que representará a legenda deve ocorrer até abril, conforme o cronograma estabelecido por Gilberto Kassab. Até lá, as declarações públicas sobre temas sensíveis, como o indulto a Bolsonaro, servirão para medir a força de cada pré-candidato dentro da estrutura partidária nacional.
A aliança entre o PT e o PSD é descrita por muitos como um casamento de conveniência, marcado por desconfianças mútuas. Enquanto o governo Lula precisa dos votos do PSD no Congresso, o partido de Kassab busca recursos federais para suas bases estaduais. No entanto, o apoio explícito de governadores do PSD a Bolsonaro coloca em xeque a durabilidade dessa parceria. O fisiologismo político, caracterizado pela troca de apoio por cargos, mostra seus limites quando as ideologias eleitorais entram em conflito aberto.
O desfecho dessa crise interna no PSD definirá o papel do partido nas eleições de dois mil e vinte e seis. Se a ala pró-Bolsonaro prevalecer, o governo Lula poderá perder um aliado fundamental no Legislativo. Por outro lado, se a legenda optar pela neutralidade, corre o risco de ser engolida pela polarização crescente. Ratinho Júnior, ao defender o indulto, deu um passo decisivo em direção à direita, forçando Gilberto Kassab a tomar uma posição mais clara sobre o futuro político nacional.
Créditos: Reportagem extraída do jornal Bem Paraná (usado de acordo com a Cláusula 27a da Lei de Direitos Autorais).
Comentário Exclusivo: O Fisiologismo de Conveniência e o Racha no PSD
O episódio expõe, antes de qualquer coisa, o fisiologismo do PSD como método de sobrevivência e expansão. O partido ocupa ministérios no governo Lula, negocia orçamento, cargos e influência, mas permite que seus principais líderes estaduais adotem discursos que apontam para outro campo político. Para o eleitor, a mensagem é simples: o PSD se adapta ao vento. A falta de linha programática coerente transforma a legenda em uma federação de projetos pessoais, não um projeto nacional.
Quando um partido participa da base e, simultaneamente, ensaia autonomia retórica para agradar plateias regionais, ele produz um efeito corrosivo na governabilidade. O Planalto passa a governar sob chantagem permanente: “apoio em Brasília, cobrança no palanque”. Essa dinâmica é típica de coalizões frágeis, onde a lealdade é condicionada ao próximo repasse, à próxima nomeação, ao próximo espaço. O resultado é previsível: decisões públicas ficam reféns de barganhas privadas, e a política vira balcão.
O PSD de Gilberto Kassab construiu sua marca como partido “do centro”, mas o centro, na prática, vira intermediação de poder, não necessariamente moderação. A legenda se especializou em estar com quem governa, independentemente do programa, para ampliar capilaridade e garantir acesso a recursos. Isso pode ser vendido como pragmatismo, mas frequentemente é lido como oportunismo. Em ano pré-eleitoral, a contradição explode porque cada líder tenta ocupar um nicho, e a unidade vira peça de marketing.
O problema do fisiologismo é que ele enfraquece a confiança do eleitor e desorganiza a administração pública. Ministérios deixam de ser instrumentos de política pública e passam a funcionar como “territórios” de partido, usados para entregar resultados localizados, atender bases e impulsionar pré-candidaturas. O país perde planejamento e ganha improviso. A coalizão, em vez de ser um pacto por reformas, vira um consórcio por cargos. Nessa lógica, a eficiência do Estado é secundária; o objetivo central é preservar poder.
Esse modelo também produz uma comunicação política confusa: o partido fala uma coisa no governo e outra nas entrevistas. No Congresso, cobra fidelidade para votar projetos; nos estados, vende distância estratégica para não pagar o custo do governo. A consequência é uma base que não é base e uma oposição que não é oposição. O eleitor percebe a encenação. E, quando o eleitor percebe, cresce o cinismo, a despolitização e a ideia de que “todo mundo é igual”, o que é um desastre democrático.
Além disso, o PSD vive uma disputa interna que amplia o ruído: Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite representam rotas diferentes para 2026. Cada um tenta construir identidade própria, mas sob o mesmo guarda-chuva partidário. Kassab tenta administrar isso mantendo portas abertas com o Planalto e com setores que podem ser decisivos no próximo ciclo. O resultado é um partido com vocação majoritária, mas com dificuldade de assumir um rumo único, consistente e verificável.
Para o governo Lula, o fisiologismo tem custo alto: ceder ministérios para assegurar votos pode garantir vitórias pontuais, mas cria dependência e incentiva o “toma lá, dá cá”. A gestão passa a gastar energia com arranjos de curto prazo em vez de políticas estruturantes. E, quando o aliado decide se diferenciar no palanque, o governo fica exposto: entrega cargos e, ainda assim, enfrenta fogo amigo. É um contrato com cláusulas invisíveis, sempre renegociado conforme a conveniência.
O PSD, por sua vez, precisa explicar ao eleitor como pretende ser “diferente” em 2026 se hoje se beneficia da estrutura federal. A narrativa de independência fica frágil quando o partido controla pastas relevantes e participa das decisões do Executivo. O eleitor pergunta: se o PSD está dentro, por que se comporta como fora? Se está fora, por que mantém ministérios? Sem resposta clara, cresce a percepção de que a legenda usa o governo como alavanca, não como compromisso com resultados nacionais.
A crítica ao fisiologismo não depende de julgar pessoas ou processos, mas de observar incentivos. Quando a política é organizada por vantagens e não por ideias, o sistema cria líderes que priorizam movimento tático, não coerência. O PSD virou o símbolo desse estilo: flexível, pragmático, bem posicionado, mas pouco transparente sobre o que defende como projeto de país. O risco, para o partido, é virar sinônimo de conveniência. E, para o país, é perpetuar um Estado capturado por barganhas.
Se o PSD quer romper essa imagem, precisa de decisões concretas: definir critérios públicos para ocupar ministérios, estabelecer compromissos de governança e transparência, e assumir uma linha nacional que não mude conforme a pesquisa da semana. Caso contrário, continuará operando como partido-ponte, sempre negociando passagem entre polos. Em 2026, o eleitor tende a punir incoerência quando ela fica escancarada. A legenda pode ter força eleitoral, mas sem identidade programática, sua força vira apenas instrumento de troca, não liderança.
Por Pr. Rilson Mota
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