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Xadrez em Davos: Trump e Zelensky desenham o fim da guerra sob a sombra da Groenlândia

Rilson Mota por Rilson Mota
22 de janeiro de 2026
em Mundo, Política
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Xadrez em Davos: Trump e Zelensky desenham o fim da guerra sob a sombra da Groenlândia

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky discursa na 56ª edição do Fórum Econômico Mundial (WEF), em Davos, na Suíça, nesta quinta-feira. Denis Balibouse/Reuters

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Davos, 22 de janeiro de 2026

O encontro estratégico entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky no Fórum Econômico Mundial marca um ponto de inflexão na geopolítica contemporânea. Após a apresentação do ambicioso “Conselho da Paz”, as discussões migraram para a resolução do conflito ucraniano, onde a diplomacia transacional de Trump busca resultados rápidos. O enviado especial Steve Witkoff sinalizou que o cerne das negociações reside na questão territorial, um tópico sensível que definirá a soberania ucraniana e a estabilidade da Europa Oriental nos próximos anos.

A intensidade diplomática resultou no anúncio de uma reunião trilateral inédita entre Estados Unidos, Ucrânia e Rússia, agendada para começar nesta sexta-feira nos Emirados Árabes Unidos. Zelensky confirmou que o encontro de dois dias visa acelerar os termos de um cessar-fogo, indicando que os documentos para encerrar a agressão russa estão “quase prontos”. Esse movimento sugere que as equipes americanas e ucranianas têm trabalhado diariamente para alinhar interesses, pressionando Moscou a aceitar uma saída negociada para o conflito.

Paralelamente, Trump utilizou a vitrine de Davos para consolidar o progresso no acordo sobre a Groenlândia, garantindo aos Estados Unidos “acesso total” para fins de defesa nacional. Ao descartar o uso de força militar e novas tarifas contra aliados europeus, o presidente americano redefiniu a segurança do Ártico como uma prioridade estratégica. Essa manobra isola opositores e estabelece uma nova zona de influência, onde a infraestrutura de defesa dos EUA servirá como um escudo contra as ambições russas e chinesas.

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O “Conselho da Paz”, assinado por menos de 20 países, surge como uma estrutura alternativa para a reconstrução de Gaza e a resolução de crises globais. Trump, apesar de suas críticas históricas às instituições multilaterais, afirmou que deseja trabalhar em conjunto com as Nações Unidas. Ao descrever Gaza como uma “bela propriedade”, o presidente sinalizou que a reconstrução da faixa devastada será tratada com uma lógica de desenvolvimento imobiliário e econômico, visando transformar a destruição em um ativo regional.

Zelensky, contudo, não poupou críticas à passividade dos líderes europeus, afirmando que o continente permanece em um perigoso “modo Groenlândia”. Para o líder ucraniano, a Europa está paralisada, esperando que as tensões americanas desapareçam espontaneamente em vez de agir com determinação. Ele questionou a capacidade de resposta europeia caso a Rússia decida invadir a Polônia ou a Lituânia, alertando que a dependência excessiva da proteção dos Estados Unidos pode ser um erro estratégico fatal para a União Europeia.

A crítica de Zelensky estendeu-se à eficácia da OTAN, sugerindo que a aliança existe hoje baseada apenas na crença de que Washington intervirá em caso de perigo real. Ele instou a Europa a criar forças armadas unidas e verdadeiramente capazes de defender o território soberano sem depender exclusivamente do guarda-chuva americano. O presidente ucraniano alertou que 40 soldados não protegem nada e que a falta de bases militares europeias robustas na região do Ártico convida à agressão externa.

Sobre a segurança marítima, Zelensky alertou para a presença de navios de guerra russos navegando livremente ao redor da Groenlândia, oferecendo a experiência militar ucraniana para neutralizar essas ameaças. Ele sugeriu que as embarcações russas poderiam “afundar perto da Groenlândia”, assim como ocorreu na Crimeia, caso a Ucrânia tivesse o suporte necessário. Essa oferta de cooperação técnica sublinha a intenção de Kiev de se tornar um pilar de segurança indispensável para o Ocidente, mesmo fora da OTAN.

O desfecho das negociações nos Emirados Árabes será o teste definitivo para a doutrina de paz de Trump. Enquanto Zelensky exige honestidade e determinação da Rússia, o mundo observa se a cessão de território será o preço amargo para o fim das hostilidades. A convergência entre o destino da Ucrânia, a segurança da Groenlândia e a reconstrução de Gaza em um único fórum demonstra como a nova administração americana pretende redesenhar o mapa de poder global através de acordos diretos.

Créditos: Reportagem baseada em informações extraídas da CNN Internacional (usado de acordo com a Cláusula 27a da Lei de Direitos Autorais).


Análise Crítica

O encontro em Davos revela a consolidação de uma “Diplomacia de Resultados”, onde conflitos existenciais são reduzidos a termos territoriais e imobiliários. A fala de Trump sobre Gaza ser uma “bela propriedade” não é apenas uma gafe retórica, mas a exposição de uma visão de mundo onde a reconstrução é vista como um empreendimento lucrativo. Essa abordagem desconsidera as complexidades étnicas e históricas, priorizando a estabilidade através do capital em detrimento da justiça social.

A crítica de Zelensky ao “modo Groenlândia” da Europa é cirúrgica e expõe a fragilidade da arquitetura de segurança do continente. Ao focar excessivamente na questão do Ártico para evitar tarifas americanas, os líderes europeus negligenciam a ameaça imediata em suas fronteiras orientais. A dependência da OTAN como um conceito abstrato, sem a devida contrapartida de forças armadas unidas e autônomas, coloca a Polônia e os Países Bálticos em uma vulnerabilidade inaceitável, dependendo inteiramente da vontade política inconstante de Washington.

A reunião trilateral nos Emirados Árabes Unidos representa um esvaziamento dos fóruns tradicionais de Genebra e Bruxelas. Ao escolher um mediador no Oriente Médio, Trump e Putin sinalizam que a Europa não é mais o palco principal de sua própria segurança. Zelensky, ao afirmar que os documentos estão “quase prontos”, parece ter aceitado que a sobrevivência do Estado ucraniano pode custar a integridade territorial, uma lição amarga sobre o realismo político que domina a nova ordem mundial multipolar.

O acordo sobre a Groenlândia, embora apresentado como uma vitória de defesa, é na verdade um movimento de cerco estratégico. Ao garantir acesso total, os EUA transformam o Ártico em um bastião militar, neutralizando a influência russa e chinesa na região. Zelensky percebeu que a Groenlândia é a nova moeda de troca e tenta inserir a Ucrânia nessa equação, oferecendo-se para patrulhar águas geladas. É uma tentativa desesperada de manter a relevância de Kiev em uma agenda americana que se torna cada vez mais focada no Norte Global.

A inação europeia, denunciada com veemência por Zelensky, reflete uma crise de identidade na União Europeia. O bloco não consegue decidir se quer ser um ator geopolítico independente ou um satélite americano. Enquanto esperam que os EUA “se acalmem”, a Rússia navega livremente, testando os limites da soberania alheia. A sugestão de forças armadas unidas europeias é a única saída lógica, mas a falta de consenso político interno torna essa proposta um sonho distante, deixando o continente à mercê de decisões tomadas em Abu Dhabi.

O “Conselho da Paz” de Trump, com sua adesão limitada, funciona mais como um clube de investidores do que como um órgão de governança global. Ao criticar a ONU enquanto propõe trabalhar com ela, Trump mantém a organização como um selo de legitimidade para suas ações unilaterais. O foco na reconstrução de Gaza sob uma lógica de mercado pode pacificar a região temporariamente, mas sem uma solução política para a questão palestina, o investimento estará sempre sob o risco de novas explosões de violência.

A oferta ucraniana de afundar navios russos no Ártico é uma demonstração de “soft power” militar. Zelensky sabe que a experiência de combate da Ucrânia é o seu maior ativo. Ao projetar essa capacidade para a Groenlândia, ele tenta provar que a Ucrânia é o braço armado que a Europa não tem coragem de ser. Contudo, essa retórica agressiva pode assustar parceiros europeus que ainda buscam evitar uma confrontação direta com Moscou, aprofundando o abismo entre Kiev e Bruxelas.

Em última análise, estamos testemunhando o fim do multilateralismo liberal e o nascimento de um bilateralismo transacional. As fronteiras da Ucrânia, a soberania da Groenlândia e o solo de Gaza tornaram-se ativos em uma mesa de negociações global. O risco é que, nesse jogo de grandes potências, a vontade das populações locais seja sacrificada em nome de acordos que garantam “acesso total” e “belas propriedades”. A paz que se desenha é pragmática, fria e profundamente desigual.

Por Pr. Rilson Mota

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