Caracas, 07 de janeiro de 2026
Uma reportagem do jornal venezuelano El Nacional afirmou que, durante o governo de Nicolás Maduro, a Venezuela teria enviado US$ 5,2 bilhões em ouro para a Suíça. O texto atribui parte dos dados a registros alfandegários e a uma apuração da agência Reuters sobre exportações de 2013 a 2016. As informações, por se tratarem de alegações jornalísticas, dependem de checagem documental e confirmação oficial por outras fontes independentes e governamentais.
Segundo o El Nacional, a Suíça decidiu congelar ativos ligados a Maduro e a pessoas de seu círculo que estariam em território suíço, após a narrativa de uma prisão do ex-presidente em operação autorizada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O governo suíço declarou que a medida busca impedir movimentação de capitais na conjuntura descrita. A reportagem sustenta que o congelamento não alcançaria integrantes do atual governo venezuelano formalmente.
Na reconstrução apresentada, teriam sido exportadas 113 toneladas de ouro para a Suíça entre 2013, quando Maduro assumiu, e 2016. O material, segundo o relato, teria origem no Banco Central da Venezuela e teria sido utilizado como fonte de liquidez para sustentar a economia, em meio a restrições financeiras. O mesmo texto afirma que, a partir de 2017, as exportações teriam cessado com sanções europeias até 2025, conforme registros citados.
O congelamento anunciado teria validade inicial de quatro anos e foi descrito como medida de precaução do Conselho Federal suíço. A justificativa, ainda conforme a reportagem, é preservar recursos caso sejam abertos processos futuros para avaliar se os ativos têm origem ilícita. Autoridades suíças teriam indicado que, se a ilegalidade for comprovada, o destino pretendido seria direcionar valores para benefício do povo venezuelano, dentro de mecanismos legais internacionais e nacionais.
O texto reproduz declaração atribuída ao Conselho Federal: a intenção seria garantir que ativos supostamente adquiridos ilicitamente não sejam transferidos para fora da Suíça na “situação atual”. A decisão, ainda segundo a nota, teria congelado bens vinculados a Maduro e a pessoas associadas, sem detalhar montantes, natureza de contas ou instituições. A ausência desses detalhes impede avaliar, por ora, o alcance financeiro e a efetividade prática da medida no prazo.
Em termos técnicos, congelamentos de ativos costumam se apoiar em legislação de combate à lavagem de dinheiro, sanções e instrumentos de cooperação jurídica internacional. Quando aplicados, buscam evitar dissipação patrimonial enquanto se apuram fatos e se define jurisdição competente. A medida suíça, conforme descrita, não equivale automaticamente a confisco, mas a uma trava temporária. Seu efeito depende de rastreamento bancário, due diligence e eventual pedido de assistência por autoridades judiciais.
A declaração suíça, se confirmada nos termos reportados, sinaliza uma postura de “preservação” patrimonial antes de qualquer desfecho judicial, prática comum em centros financeiros que buscam proteger reputação e reduzir riscos de ser plataforma de ocultação. Também indica que o país pretende condicionar eventual devolução de valores a processos formais, e não a decisões políticas. Para a Venezuela, o gesto tem efeito, pois submete a escrutínio origem de verbas públicas.
No cenário internacional, a iniciativa atribui à Suíça um papel ativo na gestão de ativos potencialmente contestados, aproximando-se de medidas já adotadas por União Europeia e Estados Unidos em diferentes momentos. O texto menciona sanções europeias como divisor de águas para exportações a partir de 2017. Se os dados estiverem corretos, a janela 2013–2016 teria sido crucial para liquidez venezuelana. Para observadores, isso reabre debate sobre rastreabilidade de commodities, intermediários.
A reportagem também descreve que Maduro estaria nos Estados Unidos aguardando julgamento, e associa o episódio a uma operação “aprovada” pelo presidente Donald Trump. Trata-se de afirmações extraordinárias que, por sua gravidade, exigem confirmação por canais oficiais e por múltiplas fontes independentes. Nesta matéria, registra-se apenas o conteúdo publicado pelo El Nacional, sem validação documental própria. O ponto central é a reação suíça: congelar bens para evitar saída de capital.
Para o público venezuelano, a mensagem implícita do congelamento é que o destino de ativos no exterior pode entrar em rota judicial, com discussões sobre titularidade, origem e eventual restituição. Em casos semelhantes, a devolução ao país de origem costuma depender de sentenças, acordos e garantias de que o recurso não será novamente capturado por redes de corrupção. O anúncio suíço menciona, em tese, uso “em benefício do povo” futuramente.
Do ponto de vista diplomático, a decisão reportada reforça a tendência de vincular fluxos financeiros a padrões de integridade pública. Para a Suíça, que equilibra neutralidade com deveres de compliance, ações desse tipo comunicam rigor regulatório e reduzem risco reputacional. Para países latino-americanos, o episódio funciona como alerta sobre dependência de exportações concentradas e sobre como reservas podem ser mobilizadas em crises. O desfecho depende de provas e de foro.
Até que documentos oficiais sejam apresentados, o tema permanece no campo de alegações noticiosas, com impacto político potencial. O congelamento de bens, quando ocorre, costuma ser etapa inicial e reversível, sujeita a contestação e prazos. A menção a volumes de ouro exportados recoloca em pauta políticas de reservas e transparência fiscal. Em meio à crise venezuelana registrada por organismos e imprensa, a discussão sobre ativos externos tende a ganhar centralidade sempre.
Comentário exclusivo
Se a remessa de US$ 5,2 bilhões em ouro e o congelamento suíço se confirmarem, o contraste moral é brutal: riqueza metálica cruzando oceanos enquanto venezuelanos enfrentam escassez, inflação e migração forçada. Ouro é reserva de soberania; quando vira instrumento de sobrevivência de governo, a sociedade perde duplamente, pela falta de serviços e pela perda de patrimônio. O discurso de “benefício ao povo” só fará sentido com transparência e restituição.
Há países que tratam ditaduras como “parceiros estratégicos” e fecham os olhos para violações, porque preferem a conveniência à coerência. Isso não é pragmatismo; é cumplicidade diplomática. Quando regimes autoritários são normalizados, a conta aparece em refugiados, redes criminais, corrupção transnacional e instabilidade regional. Congelar ativos pode ser passo técnico importante, mas não substitui o essencial: condenação clara de governos que concentram poder, sufocam oposição e empobrecem a população inteira.
O Brasil precisa repensar sua política externa quando ela soa como escudo para governantes que arruínam suas próprias sociedades. Defender “não intervenção” não pode virar desculpa para tolerar abusos e miséria programada. Política externa existe para proteger interesses nacionais e valores republicanos, inclusive a defesa de direitos humanos. O contribuinte brasileiro não ganha nada ao relativizar autoritarismo alheio; ganha risco geopolítico e custo moral. Prioridade deve ser o povo brasileiro.
Quando um país exporta ouro em escala e, ao mesmo tempo, vê sua população depender de remessas e cestas básicas, algo está quebrado. A explicação “foi para sustentar a economia” esconde a pergunta central: quem foi sustentado. Sem prestação de contas, o ouro vira símbolo de captura do Estado por uma elite, enquanto cidadãos enfrentam miséria. A Suíça fala em precaução; o mundo deveria falar em princípios com transparência pública.
Há responsabilidade dos atores que mantêm portas abertas e tapetes vermelhos para líderes contestados, como se nada estivesse acontecendo. Neutralidade seletiva vira incentivo e sinaliza que sempre haverá um parceiro disposto a financiar ou blindar. A consequência é perpetuar regimes sustentados por controle institucional. Se a Suíça diz mirar o “benefício do povo”, precisará de mecanismos auditáveis, com governança internacional. Sem transparência, congelamento vira gesto simbólico e não altera vidas.
Para o Brasil, o episódio deveria servir como freio: não há ganho em relativizar autoritarismo em nome de alinhamentos circunstanciais. O país precisa defender democracia e instituições, porque isso protege brasileiros e fortalece comércio de longo prazo. Política externa madura escolhe parceiros por previsibilidade e respeito a direitos. Quando bilhões circulam em ativos e a população venezuelana enfrenta fome, a indignação é legítima. A prioridade deve ser o Brasil sempre.
Fonte: Reportagem extraída de O jornal El Nacional, jornal da Venezuela.






