Buenos Aires , 08 de janeiro de 2026
A Justiça Penal Econômica da Argentina manteve em andamento a investigação sobre uma propriedade de luxo em Pilar, na província de Buenos Aires, citada em apuração do jornal LA NACION como ligada, por suspeita, a dirigentes da Associação do Futebol Argentino (AFA). Segundo a reportagem, os proprietários formais do imóvel pediram a suspensão do processo durante o recesso judicial, alegando ausência de urgência. O pedido foi rejeitado pelo juiz Aguinsky.
O magistrado Marcelo Aguinsky, responsável pelo caso, decidiu não interromper diligências apesar do período de férias forenses e encaminhou a petição ao Tribunal de Apelações. A informação publicada pela LA NACION indica que, enquanto a investigação prossegue, a análise recursal ficará a cargo de um tribunal de plantão com composição mista, reunindo a juíza Carolina Robiglio e o juiz Leopoldo Bruglia. A decisão final sobre o pedido ainda será tomada.
De acordo com o relato, Bruglia foi o magistrado que determinou a remessa do expediente do foro federal de Comodoro Py para a jurisdição penal econômica. A mudança teria ocorrido após o juiz Daniel Rafecas adotar medidas iniciais e declarar-se incompetente para seguir no caso. A transição de competência passou a ser um dos pontos processuais discutidos em paralelo, enquanto o juízo mantém atos de instrução e coleta de elementos.
Na investigação descrita pelo jornal, Luciano Pantano e Ana Conte aparecem como proprietários formais da empresa Real Central, indicada como titular, no papel, da mansão com heliponto e haras e de uma coleção de veículos apreendida durante buscas. Pantano é descrito como autônomo e Conte como aposentada. As autoridades judiciais, segundo a LA NACION, suspeitam que ambos atuem como interpostas pessoas, e não como donos reais dos bens sob apuração.
O juiz Aguinsky, segundo a reportagem, já teria reunido elementos que sustentam a hipótese de que a titularidade declarada não corresponde à efetiva posse econômica. Entre as evidências citadas está a existência de um cartão corporativo da AFA em nome de Pantano, usado para despesas relacionadas a deslocamentos e retirada de automóveis. O extrato indicado pelo jornal registraria gastos mensais aproximados de 50 milhões de pesos, valor que será analisado.
Ainda conforme a LA NACION, buscas no imóvel resultaram na apreensão de uma bolsa esportiva e de uma placa comemorativa com o nome de Pablo Toviggino, dirigente citado na apuração. A reportagem relata que, além de carros de luxo, foram localizados dois karts semelhantes aos usados em competições locais pelo filho de Toviggino. Os itens foram registrados e encaminhados para perícia e custódia, dentro do procedimento judicial em curso atual.
Paralelamente, tramita no Tribunal de Campana um pedido apresentado pelo advogado Mariano Morán, que representa Pantano e Conte, para que Aguinsky se declare impedido de seguir à frente do caso. O juiz Adrián González Charvay solicitou ao colega que avaliasse a questão, conforme a reportagem. Aguinsky recusou-se a se afastar, e o conflito de competência e impedimento chegou ao Tribunal Federal de Apelações de San Martín, que ainda não decidiu.
Com o pedido de suspensão rejeitado, a investigação continua com diligências e análise de documentos financeiros e societários, segundo a LA NACION. A decisão de Aguinsky mantém a apuração ativa enquanto o Tribunal de Apelações avalia se há motivo para interromper atos no recesso. O caso discute titularidade de ativos, movimentações com cartão corporativo e competência judicial. Novas medidas dependerão de decisões do plantão e de eventual pronunciamento colegiado posterior.
Créditos: Reportagem extraída do jornal argentino LA NACION.
Comentário técnico e crítico
Casos como o descrito na LA NACION expõem um problema recorrente no futebol sul-americano: a confusão entre patrimônio privado e estruturas associativas que administram recursos de alto volume. Quando investigações apontam possíveis interpostas pessoas, o foco técnico não é o luxo em si, mas a trilha de propriedade, a origem dos recursos e o mecanismo de controle interno. Se uma entidade usa cartões corporativos sem auditoria robusta, ela cria uma zona cinzenta propícia a desvios e captura institucional de poder.
A tentativa de paralisar apurações durante recesso revela outra vulnerabilidade: a estratégia processual de ganhar tempo, diluir provas e normalizar atrasos. Em organizações esportivas, tempo é ativo; quanto mais a investigação demora, maior o risco de dissipação patrimonial, destruição de registros e pressão sobre testemunhas. Por isso, medidas cautelares e continuidade de diligências têm racionalidade técnica. A crítica aqui não é ao direito de defesa, mas ao uso do calendário judicial como ferramenta de opacidade em benefício de interesses privados.
O elemento mais sensível, se confirmado, é a utilização de meios de pagamento vinculados à entidade para despesas que não aparentam relação com finalidade institucional. Cartões corporativos exigem política de gastos, centros de custo, limites, reconciliação mensal e auditoria independente, com aprovação segregada e trilhas imutáveis. Sem isso, o sistema vira caixa paralelo. No futebol sul-americano, onde receitas de TV, patrocínio e transferências circulam em moeda forte, esse tipo de fragilidade é convite a corrupção e captura de federações inteiras.
Há ainda o problema da governança supranacional. Muitas federações respondem a confederações, mas a supervisão costuma ser formalista e tardia, com relatórios pouco acessíveis e sanções raras. A consequência é um ecossistema que premia lealdade política, não compliance. Para romper isso, seria necessário exigir demonstrações financeiras padronizadas, auditorias rotativas, divulgação de beneficiário final de empresas relacionadas e regras rígidas de conflito de interesses para dirigentes, familiares e fornecedores. E também canais de denúncia, proteção a whistleblowers e transparência de contratos.
O público costuma ouvir “corrupção no futebol” e imaginar apenas propina em arbitragem, mas o núcleo moderno é mais sofisticado: contratos de mídia, licenciamento, bilheteria, hospitalidade, apostas e compras de serviços. Sem governança de dados e controles de integridade, a manipulação pode ocorrer por sobrepreço, pagamentos cruzados e empresas de fachada. Investigações patrimoniais, como a de Pilar, são importantes porque perseguem o dinheiro, não o boato. É assim que se desmonta o sistema com prova, cadeia de custódia e transparência.
Ao mesmo tempo, é preciso cautela: alegações jornalísticas não equivalem a sentença, e a presunção de inocência protege todos. Mas cautela não pode virar complacência. A América do Sul convive há décadas com cartolas blindados por redes políticas e por uma cultura de impunidade esportiva. Se as federações querem credibilidade, precisam aceitar escrutínio público, publicar gastos, limitar mandatos, profissionalizar compliance e permitir fiscalização independente. Do contrário, cada novo escândalo apenas confirma o diagnóstico: a corrupção virou modelo de gestão regional.
Por Pr. Rilson Mota
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