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Olhares invisíveis: tecnologia mapeia a vida secreta dos mamíferos no Centro-Sul, Acadêmicos Unicentro

Rilson Mota por Rilson Mota
22 de janeiro de 2026
em Guarapuava, Paraná
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Olhares invisíveis: tecnologia mapeia a vida secreta dos mamíferos no Centro-Sul, Acadêmicos Unicentro

Pesquisa da Unicentro mapeia mamíferos silvestres em unidades de conservação Foto: UNICENTRO

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Guarapuava, 22 de janeiro de 2026

O princípio “conhecer para preservar” sustenta o novo levantamento científico conduzido por acadêmicos de Medicina Veterinária da Unicentro. Desde setembro de 2025, a equipe monitora a mastofauna em duas áreas vitais do Paraná: os parques estaduais São Francisco da Esperança e Santa Clara. O estudo busca preencher lacunas sobre a presença de mamíferos silvestres em regiões de transição ambiental, utilizando métodos não invasivos para registrar comportamentos naturais sem interferência humana direta no habitat.

A metodologia baseia-se no uso estratégico de armadilhas fotográficas, com oito equipamentos automáticos distribuídos em pontos de passagem e trilhas naturais. Essas câmeras operam ininterruptamente, acionadas por sensores de movimento e infravermelho, capturando imagens e vídeos mesmo na escuridão total. Segundo o professor Rodrigo Martins de Souza, orientador do projeto e coordenador do Cetras, essa técnica é essencial para identificar espécies ariscas ou de hábitos noturnos, garantindo um inventário fidedigno da biodiversidade regional.

Os dados coletados possuem aplicação direta na gestão pública ambiental, servindo de base para o Instituto Água e Terra (IAT). As informações auxiliam na atualização de planos de manejo e na definição de zonas prioritárias para conservação e fiscalização. Além do aspecto burocrático, a pesquisa fortalece o banco de dados científicos do Paraná, permitindo análises sobre ecologia e saúde da fauna. O projeto integra a universidade aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, promovendo a proteção da vida terrestre.

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Um dos pontos altos da pesquisa é o contraste entre as unidades de conservação. O Parque Estadual Santa Clara, em Candói, é uma área de proteção integral sem visitação pública, o que preserva características originais da mata. Por ser o primeiro levantamento sistemático no local, os pesquisadores analisam como a fauna responde à fragmentação florestal e à proximidade com usinas hidrelétricas. É um laboratório vivo para entender a resiliência das espécies em paisagens impactadas pelo desenvolvimento humano.

Em contrapartida, o Parque Estadual São Francisco da Esperança oferece um cenário de maior conectividade ecológica, integrando-se à Serra da Esperança e terras indígenas. Essa amplitude territorial favorece a ocorrência de grandes mamíferos e espécies ameaçadas, permitindo estudos sobre sazonalidade e uso do habitat. Enquanto Santa Clara foca na sobrevivência em fragmentos, o São Francisco permite observar o fluxo gênico e a movimentação de animais que exigem grandes áreas de vida para prosperar.

Entre os registros mais celebrados está a confirmação oficial da sussuarana (onça-parda) por meio de imagens nítidas. Embora houvesse relatos de avistamentos, a prova fotográfica é um marco científico que atesta a qualidade ambiental do parque, já que predadores de topo exigem ecossistemas equilibrados. Além da onça, as lentes capturaram o cachorro-do-mato, quatis, veados e cutias, revelando uma teia alimentar complexa e ativa, fundamental para a manutenção das florestas e dispersão de sementes.

Entretanto, o monitoramento também revelou sinais de alerta, como a presença frequente de cachorros domésticos dentro das unidades de conservação. Para a acadêmica Gabriela Pedrozo Festa, esse dado é preocupante, pois animais domésticos competem por recursos, predam espécies nativas e transmitem doenças graves à fauna silvestre. O registro evidencia a necessidade urgente de ações de educação ambiental e fiscalização nas zonas de amortecimento dos parques, visando mitigar conflitos entre áreas rurais e reservas.

A pesquisa também documentou a presença de capivaras e outros roedores de médio porte, que servem de base alimentar para os grandes carnívoros. A análise da abundância dessas espécies ajuda a prever a capacidade de suporte do ecossistema para manter a população de felinos. Cada imagem capturada funciona como uma peça de um quebra-cabeça ecológico, permitindo que os cientistas compreendam a dinâmica de predação e herbivoria que sustenta a Mata Atlântica paranaense.

Para os estudantes envolvidos, como Amanda Batista Silveira, a iniciação científica proporciona uma visão crítica que une teoria e prática de campo. O contato com métodos de coleta e análise de dados prepara os futuros veterinários para os desafios da conservação da biodiversidade. A experiência no Cetras, que recebe animais vítimas de atropelamentos e tráfico, ganha uma nova perspectiva ao observar esses mesmos indivíduos vivendo em liberdade e cumprindo seus papéis ecológicos.

O projeto da Unicentro reforça o papel da universidade pública como motor de desenvolvimento científico regional. Ao gerar conhecimento sobre a fauna do Centro-Sul, a instituição fornece ferramentas para que o progresso econômico não ocorra às custas da extinção de espécies nativas. O levantamento, que seguirá por um ano, promete novas descobertas que colocarão o Paraná em destaque nas estratégias nacionais de conservação de mamíferos, garantindo um futuro mais seguro para a biodiversidade.


Análise Técnica

Como especialista com pós-doutorado em ecologia e segurança ambiental, avalio que este projeto da Unicentro ultrapassa a simples catalogação de espécies. O uso de armadilhas fotográficas em um desenho experimental que compara áreas com diferentes níveis de impacto humano (Santa Clara vs. São Francisco) é fundamental para a ecologia de paisagens. O registro da onça-parda não é apenas um “troféu” visual, mas um indicador biológico de que a cadeia trófica ainda possui funcionalidade, apesar das pressões antrópicas crescentes.

A presença de animais domésticos em unidades de conservação integral é um dos maiores desafios da gestão ambiental moderna. Sob a ótica da Saúde Única (One Health), o contato entre cães domésticos e carnívoros silvestres pode desencadear surtos de cinomose ou parvovirose, capazes de dizimar populações locais de felídeos e canídeos nativos. A pesquisa cumpre um papel social crítico ao denunciar essa invasão biológica, exigindo que o IAT reforce as políticas de controle de animais domésticos no entorno dos parques.

Do ponto de vista da gestão pública, os dados gerados são ativos valiosos para a segurança jurídica dos Planos de Manejo. Muitas vezes, decisões de zoneamento são contestadas por falta de evidências robustas; agora, o estado possui provas incontestáveis da presença de fauna sensível. Isso fortalece a posição do IAT em processos de licenciamento ambiental e na criação de corredores de biodiversidade, garantindo que a infraestrutura regional respeite os fluxos migratórios e as áreas de vida dos mamíferos.

Por fim, a integração acadêmica demonstrada no projeto é louvável. Formar médicos veterinários com sensibilidade ecológica e domínio de métodos de campo é investir na prevenção de desastres ambientais futuros. A universidade atua como um braço técnico do estado, otimizando recursos e gerando ciência de alta aplicabilidade. Este levantamento é uma luz sobre a importância de manter investimentos em pesquisa básica, pois não se pode proteger o que não se conhece profundamente em sua dinâmica natural.

Por Pr. Rilson Mota

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