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Janeiro Roxo em Guarapuava: a Campanha Que Mira a Mancha Antes da Sequela

Rilson Mota por Rilson Mota
8 de janeiro de 2026
em Guarapuava
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Janeiro Roxo em Guarapuava: a Campanha Que Mira a Mancha Antes da Sequela
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Guarapuava, 08 de janeiro de 2026

A Prefeitura de Guarapuava iniciou, neste mês de janeiro, a campanha Janeiro Roxo, voltada à conscientização sobre hanseníase. A ação é conduzida pela Secretaria Municipal de Saúde e tem como eixo orientar a população sobre sinais e sintomas, reforçar a importância do diagnóstico precoce e divulgar os serviços disponíveis na rede municipal. A proposta é estimular procura rápida por atendimento diante de alterações de pele e sensibilidade, reduzindo risco de complicações e transmissão.

A hanseníase é uma doença infectocontagiosa crônica causada pela bactéria Mycobacterium leprae, também chamada bacilo de Hansen. A infecção atinge sobretudo a pele e os nervos periféricos e pode provocar redução ou perda de sensibilidade térmica, dolorosa e tátil, além de diminuição de força muscular. Mãos, braços, pés, pernas e olhos são áreas frequentemente afetadas. Sem tratamento, a evolução lenta pode levar a deformidades e incapacidades permanentes.

A transmissão ocorre principalmente por contato próximo e prolongado com pessoa doente que ainda não iniciou tratamento, por secreções respiratórias, como as de nariz e boca. Após o contágio, os sinais podem demorar de dois a dez anos para aparecer. A maioria das pessoas apresenta resistência natural ao bacilo, mas o adoecimento tende a ocorrer com maior frequência em indivíduos com menor resposta imunológica, segundo informações técnicas da campanha municipal.

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Entre 2017 e 2025, Guarapuava registrou 90 casos de hanseníase. O maior número de diagnósticos ocorreu em 2020, com 18 casos novos. Em 2021, não houve registros, cenário apontado pela administração municipal como possivelmente associado aos impactos da pandemia de Covid-19 na busca por atendimento e na rotina de vigilância. Em 2022 e 2023, foram sete casos em cada ano, conforme os dados divulgados.

Em 2024, o município contabilizou 13 casos e encerrou 2025 com dez notificações. A Prefeitura informou que a maioria dos diagnósticos foi classificada como grau zero, o que sugere detecção relativamente precoce. Ainda assim, a presença de casos em grau dois ao longo dos anos indica que há diagnósticos tardios, com dano neurológico instalado, reforçando a necessidade de intensificar vigilância ativa e comunicação pública sobre sintomas.

Durante todo o mês de janeiro, a Prefeitura prevê ações de conscientização com foco em disseminação de informações em canais de comunicação, buscando ampliar alcance e orientar sobre sinais, sintomas e tratamento. A estratégia prioriza comunicação em mídias para alcançar diferentes perfis de público, com incentivo à procura por avaliação em unidades de saúde diante de manchas suspeitas e alterações de sensibilidade. A campanha também reforça que o tratamento é gratuito e ofertado na rede pública.

Os sintomas iniciais exigem atenção porque a hanseníase pode se manifestar com manchas esbranquiçadas, avermelhadas ou amarronzadas, associadas a perda ou alteração de sensibilidade. Podem ocorrer pele seca, diminuição do suor, queda de pelos, formigamento e redução da percepção de calor, dor e tato. A campanha cita ainda dor ao longo dos nervos, inchaço em mãos e pés, fraqueza muscular, nódulos e úlceras, entre outros sinais descritos.

A enfermeira Larissa Bento de Azevedo, coordenadora do Programa de Hanseníase do município, destacou que o diagnóstico precoce é crucial para evitar sequelas e interromper a transmissão. Segundo ela, a prevenção de comprometimentos físicos depende da detecção antes de danos neurológicos e musculares se consolidarem. Ela também explicou que, após a primeira dose da medicação, o paciente deixa de transmitir a doença, o que reforça a importância de iniciar tratamento o quanto antes.

O tratamento é realizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sem necessidade de internação, conforme informado pela Prefeitura. Após o início da medicação, o paciente pode manter suas atividades cotidianas, respeitando acompanhamento e orientações clínicas. A campanha enfatiza que a continuidade do tratamento é parte essencial do controle, pois permite cura e reduz a cadeia de transmissão. O município orienta que pessoas com sintomas procurem a UBS mais próxima.

Quem identificar manchas com alteração de sensibilidade ou outros sinais deve buscar atendimento na Unidade Básica de Saúde mais próxima. A avaliação inicial é feita pela equipe de saúde e, quando necessário, o paciente é encaminhado para acompanhamento especializado dentro da rede municipal. A campanha também informa que não existe vacina específica contra hanseníase, mas que a BCG, aplicada rotineiramente ao nascimento, contribui para reduzir o risco de adoecimento, como medida complementar.


Comentário técnico e exclusivo

Janeiro Roxo é, tecnicamente, uma estratégia de saúde pública centrada em reduzir atraso diagnóstico, o principal determinante de incapacidade na hanseníase. O foco em “mancha + alteração de sensibilidade” é correto porque traduz, em linguagem leiga, a neuropatia periférica precoce causada pelo bacilo. Para o sistema, o alvo real é detectar antes do grau dois, quando há deformidade visível. A campanha funciona melhor quando integra comunicação, triagem na atenção primária e fluxo rápido para confirmação, evitando peregrinação do paciente.

Do ponto de vista clínico, a hanseníase não é uma “doença de pele”; é uma doença de nervo com expressão cutânea. A perda de sensibilidade não é detalhe, é marcador funcional de dano neural. Por isso, a UBS precisa de protocolo de exame dermatoneurológico: inspeção de lesões, testes simples de sensibilidade (térmica, dolorosa, tátil), avaliação de nervos periféricos palpáveis e força muscular distal. Sem padronização, o diagnóstico se atrasa e as lesões viram sequelas evitáveis.

A comunicação sobre transmissão por contato próximo e prolongado precisa ser precisa para reduzir estigma. Tecnicamente, o risco maior está em conviventes domiciliares de casos não tratados; após início da poliquimioterapia, a infectividade cai rapidamente. Isso é crucial para evitar isolamento social do paciente. Ao mesmo tempo, o município deve reforçar busca ativa de contatos e avaliação sistemática de familiares, porque o controle se faz na rede de convivência. Campanha sem rastreio de contatos vira ação informativa, não intervenção epidemiológica.

Os dados locais de 2017 a 2025 são úteis para vigilância, mas exigem interpretação metodológica. O “zero caso” em 2021 pode refletir subdiagnóstico por redução de procura e acesso durante a pandemia, e não ausência real de transmissão. O que importa é a curva de detecção e, principalmente, a proporção de casos com grau dois, indicador de falha de acesso ou de reconhecimento clínico. Um painel público com séries, por bairro e faixa etária, ajudaria a orientar ações.

A frase “não existe vacina específica” deve vir acompanhada de uma nuance técnica: a BCG não é vacina para hanseníase, mas tem efeito protetor parcial e é relevante em políticas de contato, conforme normas sanitárias. Além disso, a campanha deve explicar que tratamento é curativo, gratuito e ambulatorial, mas depende de adesão e acompanhamento para reações hansênicas e neurites, que podem ocorrer mesmo durante terapia. Rede preparada reduz incapacidade com fisioterapia, proteção de olhos e cuidados com pés.

Para maximizar resultados, Guarapuava pode transformar Janeiro Roxo em rotina anual de qualidade: treinamento da APS, auditoria de prontuários, padronização de encaminhamento e indicadores mensais de tempo até diagnóstico. Também é estratégico envolver escolas, empresas e lideranças comunitárias, porque o principal gargalo é a pessoa não procurar a UBS por desconhecimento ou medo. Tecnicamente, cada diagnóstico precoce evita custo social alto: incapacidade, afastamento do trabalho, demanda de reabilitação e perda de qualidade de vida.

Por Pr. Rilson Mota

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