São Paulo, 16 de janeiro de 2026
O São Paulo conquistou na quinta-feira, no MorumBIS, sua primeira vitória em 2026 ao bater o São Bernardo por 1 a 0, em um jogo marcado por gramado encharcado e alto nível de pressão externa. Depois da derrota por 3 a 0 para o Mirassol na estreia, o Tricolor precisava de resposta imediata para interromper a escalada de desconfiança. O resultado foi magro, mas funcional: garantiu três pontos e reduziu o ruído da semana.
A partida também trouxe um componente simbólico: vencer “debaixo d’água” em um cenário de cobrança intensa. O jogo não ofereceu conforto técnico durante boa parte do tempo, com poucas sequências longas de posse e muita disputa territorial. Ainda assim, o São Paulo encontrou um caminho para cumprir o objetivo mínimo. Em torneios curtos, pontuar cedo é um ativo estratégico: dá margem para ajustes sem o time afundar em crise emocional.
Hernán Crespo sinalizou mudança já na escalação ao abandonar o sistema com três zagueiros e montar uma linha defensiva de quatro. A alteração muda referências de cobertura, encaixes laterais e o modo como o time progride com a bola. O efeito foi imediato no primeiro tempo: o São Paulo teve dificuldade para conectar setores e dependia de ações diretas para ganhar campo. Com gramado pesado, essa escolha tática teve racionalidade, mas reduziu a fluidez.
Outro fator foi a configuração do ataque sem um meia de ligação claro. Lucas Moura ocupou funções de articulação, mas em um contexto de jogo físico e com espaço reduzido, a equipe ficou presa em lançamentos e conexões rápidas de baixa taxa de acerto. A melhor chance antes do intervalo nasceu justamente quando houve raridade: troca curta, aceleração e cruzamento, finalizando com bola na trave. O problema não foi falta de entrega; foi falta de mecanismo para criar com consistência.
O segundo tempo mostrou evolução. Com condições de gramado menos hostis e ajustes de comportamento, o São Paulo passou a circular mais, reduzir lançamentos e forçar o São Bernardo a defender em bloco com menos conforto. O time ganhou presença no terço final e produziu mais jogadas de ataque posicional, ainda que sem grande volume. Em jogos assim, a vitória costuma ser decidida por detalhe: bola parada, rebote e insistência na segunda bola.
A chuva influenciou diretamente o desenho do jogo. As poças diminuíam velocidade e imprevisibilizavam quique, o que penaliza passes pelo chão e favorece escolhas verticais e bolas longas. Na segunda etapa, o campo melhorou e o São Paulo também se beneficiou do lado com menos acúmulo de água para atacar. Esse tipo de condicionante é subestimado, mas altera a probabilidade de erro e a tomada de decisão. Não é desculpa; é variável de performance.
O gol saiu em bola parada e atenção ao rebote: cobrança de falta, finalização na trave e Luciano atento para concluir. Em contexto de instabilidade, gols assim valem dobrado porque recompõem confiança e mudam a temperatura do estádio. Mais do que estética, o time precisava de um evento de vitória para encerrar a narrativa de “derrota e crise”. A resposta veio em formato de sobrevivência competitiva: sofrer, insistir e aproveitar o momento.
Mesmo com o triunfo, o jogo deixou alertas. O São Paulo ainda mostrou dificuldade para controlar ritmo sem depender de ligação direta e ainda carece de soluções estruturadas para criação, especialmente quando o plano A não encaixa. A vitória, porém, dá tempo e oxigênio para treinar correções com menos ansiedade. Em um ano que começou turbulento, conquistar o primeiro resultado positivo pode ser o tipo de alavanca que muda o humor interno e a percepção externa.
No entorno, o bastidor segue pesado, e a equipe terá de conviver com pressão política paralela à evolução esportiva. A vitória foi comemorada como se fosse título por parte de torcedores porque ela representou alívio e retomada de esperança. A pergunta que fica — e que só a sequência responderá — é se 2026 será uma temporada de batalhas “no limite” ou se o time conseguirá transformar esse triunfo sofrido em base para estabilidade e performance.
Comentário exclusivo
A vitória de ontem foi um teste cardíaco porque expôs o São Paulo como ele está hoje: um time que ainda não controla a própria narrativa. Quando o bastidor está em crise, o placar vira anestesia. E o torcedor comemora como título porque está faminto por sinais de normalidade. O problema é que viver de “alívio” não sustenta temporada. O clube precisa transformar esse 1 a 0 em ponto de partida, não em ponto final emocional.
A leitura tática é clara: Crespo mudou o desenho e pagou preço no primeiro tempo. Linha de quatro e quatro atacantes sem um conector natural geraram dependência de ligação direta. Isso não é pecado em gramado encharcado, mas vira vício quando o campo melhora e o time ainda não constrói. O segundo tempo foi melhor, sim, mas ainda faltou continuidade. Se o São Paulo quiser estabilidade, precisa de mecanismo de progressão que não dependa de heroísmo e rebote.
O gramado pesado foi personagem, mas não pode virar muleta. Times grandes precisam ter “plano chuva”: simplificar, proteger segunda bola, atacar zonas mais seguras e ser eficiente em bola parada. Ontem isso funcionou, e aí está o mérito. Só que o campeonato não vai chover sempre. Quando o campo estiver rápido, a cobrança volta para modelo de jogo e criação. E é aí que o São Paulo ainda está devendo: gerar chances por construção, não só por insistência.
O extra-campo é o risco real: crise política drena foco e cria clima de “todo jogo é decisão”. Isso desgasta elenco e comissão. O trabalho do treinador precisa incluir blindagem psicológica e gestão de expectativa: não dá para jogar cada rodada como se fosse tribunal. Se o grupo entrar nessa espiral, a performance vira refém de ansiedade. A vitória ajuda a baixar a temperatura, mas o clube precisa estabilizar a comunicação e reduzir ruído institucional.
A pergunta “o ano vai ser assim?” é legítima. Do jeito que começou, pode virar uma sequência de batalhas, sim. Mas existe escolha: ou o São Paulo usa essa vitória como plataforma para organizar o jogo e criar consistência, ou aceita viver de sobrevivência, jogo amarrado e placar curto. Uma temporada longa não perdoa improviso emocional. O Tricolor venceu; agora precisa aprender a vencer sem sangrar tanto — dentro e fora de campo.
Por Pr. Rilson Mota
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