São Paulo, 14 de janeiro de 2026
Aliados do presidente do São Paulo, Julio Casares, têm sugerido que ele renuncie ao cargo até sexta-feira, data marcada para a votação do impeachment no Morumbis. A reunião do Conselho Deliberativo está prevista para ocorrer na sexta, um dia após o jogo contra o São Bernardo pelo Paulistão. Também estão previstos protestos de torcedores no entorno do estádio, o que amplia o componente político e de imagem em torno do processo.
A orientação de pessoas próximas, segundo o cenário descrito, é que Casares evite a exposição de atravessar um rito de impedimento, entregue o cargo e preserve seus direitos políticos. Em caso de renúncia, o vice-presidente Harry Massis Junior, de 80 anos, assumiria até o fim do mandato. O movimento seria lido como saída de gestão de crise, buscando reduzir desgaste institucional, acalmar o ambiente e reorganizar a condução administrativa do clube.
O São Paulo já viveu precedente semelhante em 2015. Naquele ano, diante de denúncias que afetaram a governabilidade, o então presidente Carlos Miguel Aidar renunciou, e o vice Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, assumiu. A lembrança desse episódio aumenta a pressão por uma decisão estratégica: enfrentar a votação e o risco de afastamento ou renunciar e tentar controlar a narrativa. Em clubes, governabilidade é capital: sem ela, futebol e finanças sofrem.
A reunião para discutir o impeachment será híbrida, com voto secreto, envolvendo 254 conselheiros. Para que Casares seja afastado temporariamente, são necessários 171 votos favoráveis. Se houver afastamento, a nova votação ocorrerá em até 30 dias, em Assembleia com os sócios, o que prolonga o período de instabilidade. O modelo de votação e o quórum elevado tornam a disputa um jogo de articulação política: cada voto passa a ser ativo decisivo para o futuro imediato do clube.
O pedido de convocação da reunião extraordinária foi protocolado em 23 de dezembro, com 57 assinaturas. O requerimento foi apresentado pelo grupo de oposição “Salve o Tricolor Paulista”, mas contou também com 13 assinaturas de conselheiros ligados a grupos de situação, sinalizando que a pressão não ficou restrita a um único bloco interno. Esse detalhe é central no termômetro político: quando há rachadura na base, o presidente perde proteção e margem de manobra.
A crise se intensificou após reportagem que revelou exploração clandestina de um camarote do Morumbis envolvendo dois diretores da situação, posteriormente afastados. Em áudio, Mara Casares e Douglas Schwartzmann admitiriam participação em esquema para uso clandestino de camarote em show realizado em fevereiro de 2025. O episódio abriu flanco reputacional e administrativo, com questionamentos sobre controle interno, compliance e governança — temas que, hoje, pesam tanto quanto resultado em campo.
Paralelamente, a Polícia Civil mantém inquérito com frentes de apuração sobre supostas irregularidades no departamento de futebol e sobre movimentações financeiras ligadas ao clube e ao presidente. Entre os pontos citados está a investigação sobre depósitos em dinheiro que somariam R$ 1,5 milhão nas contas de Casares e sobre 35 saques nas contas do clube entre 2021 e 2025, totalizando R$ 11 milhões. As investigações ainda podem evoluir, e o caso tende a impactar a agenda política do São Paulo.
Comentário exclusivo
O que está em jogo não é só o mandato de um presidente, mas a capacidade do São Paulo de operar com governança em um ambiente que hoje é hiperexigente. Clube grande virou empresa complexa: tem receita de estádio, eventos, patrocínios, futebol, base e contratos que precisam de rastreabilidade. Quando surge suspeita de esquema envolvendo camarote e diretores, o dano não é apenas moral; é de confiança do mercado. E sem confiança, patrocinador pressiona, parceiro recua e custo de crise sobe.
A sugestão de renúncia por aliados é típica de gestão de risco: reduzir desgaste, encurtar crise e preservar direitos políticos. Mas renunciar também tem custo, porque pode parecer admissão tácita para parte da torcida e do Conselho. Enfrentar o impeachment, por outro lado, é aposta de força política. O problema é que voto secreto com quórum alto vira “guerra de bastidor”. E quando o clube entra nisso, o futebol vira refém: decisões travam e o vestiário sente instabilidade.
O número de votos necessários (171 de 254) mostra que a matemática é dura. Não basta “não ser rejeitado”; é preciso articular bloco robusto para impedir afastamento. E o fato de haver assinaturas de situação no requerimento é sinal de erosão interna. Em política de clube, base rachada significa que a crise não é só externa, é interna. Aí o presidente passa a gastar energia com sobrevivência, não com gestão. E gestão é o que mantém caixa, contratações e planejamento esportivo.
A dimensão policial do caso muda o patamar. Quando há inquérito com frentes sobre finanças e supostas irregularidades, a crise deixa de ser só política e vira também jurídica. Isso aumenta risco reputacional e pressiona respostas de compliance: auditoria independente, trilha de documentos, transparência sobre procedimentos e governança. O São Paulo não pode agir como se fosse “mais uma turbulência”. O clube precisa mostrar protocolo, porque o mercado já não aceita improviso — e a torcida também não.
O mais crítico é o timing: jogo no Paulistão, protestos, e votação logo depois. É a tempestade perfeita para qualquer instituição. A saída mais inteligente, seja qual for, precisa priorizar estabilidade e transparência. Se Casares ficar, precisa reconstruir confiança com medidas concretas e imediatas. Se sair, o clube precisa garantir transição organizada, sem vácuo de poder. O São Paulo não pode repetir ciclos de crise. Time grande não vive de camisa; vive de governança e consequência.
Por Pr. Rilson Mota
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