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Haddad mira os juros e cutuca a Selic: “a dívida cresce pelo custo do dinheiro, não pelo déficit”

Rilson Mota por Rilson Mota
19 de janeiro de 2026
em Brasil, Economia, Pastor Rilson Mota, Política
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Haddad mira os juros e cutuca a Selic: “a dívida cresce pelo custo do dinheiro, não pelo déficit”

© Valter Campanato/Agência Brasil

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Brasília19 de janeiro de 2026

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou nesta segunda-feira (19) que o principal motor da dívida pública brasileira é o patamar de juros reais, e não o déficit primário. Em entrevista ao UOL News, ele defendeu que a dinâmica da dívida deve ser lida pelo custo de carregar e rolar o estoque já existente. A declaração reposiciona o debate fiscal: menos foco no “resultado do ano” e mais atenção ao impacto permanente dos juros sobre o orçamento.

Haddad sustentou sua tese dizendo que o governo teria reduzido em 70% o déficit primário em dois anos, apontando trajetória de ajuste. Para o ministro, a própria meta de resultado primário para este ano seria mais exigente do que a de períodos recentes, sinalizando aumento de disciplina fiscal planejada. Ele argumentou que, mesmo considerando exceções, o déficit do ano passado teria ficado em 0,48% do PIB, o que, em sua visão, enfraquece a leitura de “descontrole pelo gasto”.

Na comparação citada por Haddad, o déficit projetado para 2023 durante o governo anterior teria superado 1,6% do PIB, ao passo que o resultado do ano passado, segundo ele, foi significativamente menor. O ministro citou exceções e eventos específicos como parte da conta, incluindo ressarcimentos ligados a descontos indevidos no INSS e medidas relacionadas a tarifas. O objetivo da comparação foi reforçar que a trajetória do primário estaria melhorando, apesar de pressões e despesas extraordinárias.

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O argumento econômico por trás da fala é conhecido: juros reais elevados ampliam o serviço da dívida e comprimem espaço orçamentário para investimentos e políticas públicas. Em termos práticos, quanto maior a taxa média paga pelo Tesouro, maior a necessidade de financiamento futuro, o que pode manter a dívida em crescimento mesmo quando o primário melhora gradualmente. É a lógica da “bola de neve” fiscal: juros altos hoje geram mais dívida amanhã, exigindo superávits maiores para estabilizar o indicador.

Ao tratar de política monetária, Haddad afirmou ver margem para que a taxa Selic, hoje em 15%, seja reduzida. Ele disse que, quando questionado, responde que “há espaço para cortar” porque acredita que há. A fala não substitui decisão do Banco Central, mas revela a leitura do governo sobre condições econômicas. Em ambiente de juros altos, crédito e investimento tendem a desacelerar, o que afeta crescimento e arrecadação, retroalimentando o debate fiscal.

Na mesma entrevista, Haddad elogiou a atuação de Gabriel Galípolo na presidência do Banco Central. Ele afirmou que o presidente do BC teria herdado problemas estruturados na gestão anterior e citou como exemplo o caso do Banco Master, tratado pelo ministro como um “abacaxi” que estaria sendo conduzido com responsabilidade. O elogio é politicamente relevante porque tenta reduzir ruídos entre Fazenda e BC num momento em que o tema juros volta ao centro do debate.

Haddad também defendeu a ampliação do perímetro regulatório do Banco Central, sugerindo que a autoridade monetária deveria fiscalizar fundos de investimento, atribuição que hoje está sob a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Ele disse ter apresentado proposta em discussão no Executivo para reconfigurar essa divisão de competências. O argumento é que há interseção grande entre fundos e finanças, com impactos inclusive sobre contabilidade pública e instrumentos de política monetária.

Ao abordar a alcunha “Taxad”, atribuída a ele nas redes sociais, o ministro afirmou não se incomodar e disse que ficaria satisfeito em ser lembrado como o ministro que aumentou a tributação sobre “os mais ricos”. Ele citou medidas como taxação de offshore, fundos familiares fechados e paraísos fiscais, além de dividendos, e mencionou que bancos, apostas e bilionários passaram a ser tributados. A estratégia política é reposicionar o aumento de tributos como correção de assimetrias.

No campo político, Haddad avaliou que a economia é importante, mas não necessariamente decisiva para eleições, apontando que pesquisas destacariam outros temas como segurança pública e combate à corrupção. Ele também disse não pretender se candidatar em 2026 e que conversa sobre isso com Lula, ainda sem decisão formal. As declarações reforçam um esforço do ministro em se manter como gestor da agenda econômica, evitando ruído eleitoral direto.

A fala sobre dívida, juros e Selic deve ser lida como tentativa de construir narrativa coerente: ajuste do primário em curso, custo financeiro elevado como problema central e espaço para flexibilização monetária. O teste dessa narrativa é a credibilidade: se mercados e sociedade enxergarem consistência entre metas, execução e comunicação, o prêmio de risco cai e os juros tendem a ceder. Se houver ruído fiscal, insegurança e pressão por gasto, o discurso vira apenas disputa de versão.

A discussão “juros versus déficit” também esbarra em aritmética da dívida: quando juros reais ficam acima do crescimento do PIB por tempo prolongado, o país precisa de superávit primário para estabilizar a relação dívida/PIB. Logo, reduzir juros de forma sustentável depende de inflação ancorada e fiscal confiável, além de um ambiente institucional previsível. Sem esse conjunto, cortar juros cedo pode pressionar câmbio e expectativas, criando ciclo adverso que volta à inflação e, depois, a juros ainda maiores.

No curto prazo, o debate tende a se intensificar porque afeta diretamente crédito, investimento e custo de vida. Para empresas e famílias, Selic alta encarece financiamento e reduz demanda, mas também pode conter inflação. Para o Tesouro, juros altos elevam serviço da dívida e apertam o orçamento. Para o governo, a equação vira política: como crescer sem perder âncora fiscal e como reduzir juros sem desancorar expectativas. Haddad escolheu enfatizar o custo do dinheiro como variável decisiva.

A proposta de ampliar fiscalização do BC sobre fundos, por sua vez, toca em governança financeira e estabilidade. Dependendo do desenho, pode reforçar supervisão macroprudencial e reduzir riscos sistêmicos, mas também pode gerar disputa institucional com a CVM e exigir mudança legislativa. Essa agenda aparece como parte do pacote de “redução de risco” que, em tese, ajuda a baixar o prêmio de juros. O ponto é que o mercado cobra execução, não intenção.

No fim, a entrevista revela uma tentativa de reposicionar o centro da crítica: não “gasto descontrolado”, mas “custo estrutural de financiamento” e “prêmio de risco” brasileiro. Essa é uma discussão legítima, mas incompleta sem compromisso fiscal crível e previsibilidade. A dívida não reage a frases; reage a trajetórias. E o país está em um momento em que qualquer sinal — de reforma ou de relaxamento — se transforma rapidamente em preço, taxa e confiança.

A agenda declarada também é um recado ao Banco Central: se a Fazenda entrega metas e reduz o déficit, espera contrapartida monetária. O BC, porém, responde a expectativas de inflação e risco. A coordenação entre as duas pontas é essencial para evitar conflito que eleve incerteza. Em suma, Haddad colocou a Selic e a dinâmica da dívida no mesmo quadro: reduzir custo financeiro é condição para estabilizar a dívida com menos compressão social e produtiva.

A pergunta prática é: existe, de fato, espaço para queda da Selic? Isso dependerá de inflação corrente e esperada, credibilidade do arcabouço fiscal, trajetória de gastos, estabilidade cambial e confiança institucional. Se essas variáveis evoluírem, o corte é plausível. Se houver choque, ruído ou sinalização fiscal frouxa, o custo de cortar pode ser alto. O debate real, portanto, não é retórico: é de consistência entre política fiscal, monetária e regulatória.

A entrevista também sinaliza um esforço de Haddad em ocupar o espaço do “ministro técnico” que negocia, regula e estrutura. Ao elogiar o presidente do BC, ele evita o roteiro clássico de confronto público que costuma elevar prêmio de risco. Ao defender regulação de fundos, ele busca sinalizar prudência. O desafio é que o país vive tensão permanente entre necessidade de arrecadação, pressão por gastos e juros elevados. E, nesse triângulo, a confiança decide.


Comentário exclusivo

A frase “o problema da dívida está nos juros, não no déficit” é sedutora, mas perigosa se for entendida como absolvição fiscal. Juros altos são, sim, o motor contábil da dívida — mas eles não caem por desejo político. Eles caem quando o país reduz risco. E risco, no Brasil, é combinação de gasto, inflação, instabilidade regulatória e ruído institucional. Portanto, separar juros e déficit como se fossem mundos diferentes é um truque retórico. Na realidade, eles são engrenagens do mesmo motor.

Haddad acerta ao deslocar o foco para o custo do passivo: serviço da dívida consome orçamento e reduz liberdade de gestão. Essa é a verdadeira “margem” de política pública. Porém, ele erra se sugerir que o primário é secundário. A dinâmica dívida/PIB exige superávit quando juros reais superam crescimento. Isso não é ideologia; é aritmética. Se o governo não entregar resultado fiscal crível, o prêmio de risco não cai e o juro não cede — e a fala vira narrativa sem lastro.

A alegação de redução de déficit, incluindo números como 0,48% do PIB “com exceções”, precisa ser lida com lupa: exceção é onde a credibilidade se perde. Mercado não compra “resultado com asterisco” por muito tempo. Se todo ano há um motivo legítimo para exceção, a regra vira ficção. E aí a política monetária fica travada, porque o BC precisa compensar com juros. O próprio ministro, ao defender queda da Selic, deveria entender que exceções recorrentes sabotam o argumento.

Dizer que há espaço para cortar Selic com taxa em 15% pode ser plausível, mas depende do “como”. Corte sustentável precisa de inflação ancorada e câmbio estável. Se o governo sinaliza corte sem consolidar o fiscal, cria desancoragem. E desancoragem é inflação futura, que vira juros maiores lá na frente. Ou seja: dá para cair Selic, sim, mas como consequência de credibilidade, não como objetivo em si. Caso contrário, é remédio errado: alivia hoje e agrava amanhã.

O elogio a Galípolo é politicamente inteligente: reduz atrito público entre Fazenda e BC e diminui prêmio de risco de “guerra institucional”. Mas há uma contradição: ao mesmo tempo em que elogia, Haddad pressiona por corte. Essa pressão pode parecer “coordenação”, mas também pode parecer tentativa de interferência. O BC precisa decidir com base em metas, não em agenda de governo. Se a percepção de autonomia enfraquecer, o juro sobe, não desce. Autonomia é ativo financeiro.

A discussão sobre ampliar o perímetro regulatório do BC para fiscalizar fundos é séria e pode ser útil, mas exige desenho cirúrgico. Trocar competência da CVM para o BC pode melhorar visão macroprudencial, mas também pode criar sobreposição, disputa e confusão normativa. Em finanças, confusão regulatória aumenta risco sistêmico. Se a proposta for feita como reação a escândalos, pode virar casuísmo. Se for feita como reforma estrutural, com consulta pública e transição, pode fortalecer estabilidade — e estabilidade ajuda a cair juros.

O “Taxad” é uma confissão estratégica: o governo está apostando em arrecadação para fechar conta. O problema é que arrecadação via novos tributos pode elevar custo Brasil, reduzir investimento e conter crescimento — e crescimento é parte crucial para estabilizar dívida/PIB. Taxar muito sem elevar produtividade é caminhar com freio de mão puxado. O ministro diz que taxou ricos; ótimo. Mas a economia real sente também o ambiente: cumulatividade, insegurança tributária e custo de conformidade. Isso também sobe risco.

Quando Haddad afirma que economia pode não ser decisiva em eleição, ele acerta e erra. Acerta porque segurança e corrupção são pautas dominantes. Erra porque economia é o pano de fundo de tudo: emprego, renda, custo de vida, crédito. E Selic alta afeta diretamente o cotidiano. Se o governo não reduzir juros com responsabilidade, o eleitor vai sentir. Se reduzir de forma imprudente e gerar inflação, vai sentir pior. A política econômica não escapará do julgamento eleitoral, queira ou não.

O ponto que falta na fala do ministro é o “plano de risco”: quais medidas concretas vão reduzir o prêmio brasileiro? Reformar gasto obrigatório? Rever subsídios? Melhorar governança de estatais? Avançar em reformas microeconômicas? Sem lista clara, a tese “juros são o problema” vira terceirização para o BC. E o BC não tem como resolver risco fiscal sozinho. Política monetária controla inflação; política fiscal controla sustentabilidade. Confundir papéis é a receita clássica do juro alto eterno.

No fim, a frase de Haddad deveria ser traduzida assim: “precisamos baixar o risco para baixar os juros e, assim, estabilizar a dívida”. Isso é correto. Mas baixar risco exige disciplina fiscal sem truques, comunicação sem ruído, regras previsíveis e crescimento de produtividade. Se o governo fizer isso, Selic cai naturalmente e a dívida respira. Se não fizer, a frase vira só slogan. E o Brasil já tem slogan demais e gestão de menos.

Por Pr. Rilson Mota

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