Teerã , 11 de janeiro de 2026
Relatos colhidos pela CNN descrevem que protestos recentes em Teerã terminaram em cenas de extremo caos em hospitais, após a repressão das autoridades. Uma mulher afirmou ter visto “corpos empilhados uns sobre os outros” em uma unidade de saúde, descrição que não pôde ser verificada de forma independente devido ao apagão de internet e ao medo de retaliação. As fontes falaram sob anonimato e disseram que a cidade parecia descontrolada.
Uma moradora de cerca de 65 anos e um homem de 70 relataram que viram gente de todas as idades nas ruas na quinta e na sexta feira, com multidões maiores do que em protestos anteriores. Segundo eles, a noite de sexta mudou de tom quando agentes armados com fuzis começaram a disparar, causando muitas mortes. Eles não apresentaram números e pediram proteção para evitar identificação e ameaças contra familiares.
Os protestos, segundo os entrevistados, começaram em 28 de dezembro com atos em bazares de Teerã contra a inflação e o custo de vida. Em poucos dias, manifestações se espalharam para mais de 100 cidades, transformando o movimento no maior desafio ao regime em anos. Com comunicações restritas, relatos circulam por mensagens curtas, e imagens são difíceis de autenticar. Ainda assim, a escala preocupa observadores dentro e fora do país.
Nos Estados Unidos, o secretário de Estado Marco Rubio declarou apoio ao povo iraniano, após o presidente Donald Trump repetir a ameaça de atacar o Irã se forças de segurança matarem manifestantes. As declarações ampliam o risco de internacionalização da crise, tema sensível para ativistas, que temem ser retratados como instrumento estrangeiro. Ao mesmo tempo, a retórica de Washington pressiona Teerã e alimenta incerteza regional em uma área já volátil.
Em um bairro de Teerã, manifestantes disseram ter socorrido um homem de aproximadamente 65 anos gravemente ferido. Eles afirmaram que havia cerca de 40 projéteis alojados nas pernas e que o braço estava quebrado. Tentaram levá lo a diferentes hospitais, mas descreveram o cenário como completamente caótico, com corredores lotados e equipes sobrecarregadas. A CNN não confirmou o caso com registros médicos e alertou para limitações do acesso a dados.
Outros participantes descreveram as concentrações como “incrivelmente belas e esperançosas”, com pessoas cantando e aplaudindo de janelas. Esse clima, segundo eles, mudou após discurso televisionado do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, na noite de sexta feira. Pouco depois, relatam que a repressão se tornou mais intensa e sistemática, com uso de munição e dispositivos de dispersão em diferentes pontos da capital e a população passou a agir apenas na escuridão.
Um manifestante disse à CNN que, diante do nível de violência, talvez seja preciso aceitar que o regime não cairá sem algum tipo de força externa. A frase sintetiza um dilema estratégico: apoio internacional pode proteger vidas, mas também pode ser usado para deslegitimar o movimento. Em transições autoritárias, essa tensão costuma dividir opositores entre gradualistas e defensores de ruptura imediata, ampliando riscos de fragmentação no momento crítico da disputa.
Na televisão estatal, o ministro do Interior Eskandar Momeni reconheceu “algumas deficiências”, mas afirmou que um futuro econômico melhor estaria reservado aos iranianos. A mensagem tenta recompor confiança sem admitir falha estrutural, estratégia comum em crises de legitimidade. Para manifestantes, porém, promessas de prosperidade tardia competem com a experiência diária de inflação e insegurança. Sem medidas concretas e verificáveis, a comunicação oficial tende a perder poder persuasivo rapidamente nas ruas.
Uma assistente social iraniana contou que a manifestação de sexta virou um “pesadelo” quando começaram disparos, gás lacrimogêneo e outras formas de contenção. Ela disse ter visto uma garota receber choque elétrico no pescoço até desmaiar e afirmou que o filho de uma colega de trabalho estaria entre os mortos. A CNN não conseguiu confirmar essas alegações de forma independente, mas registrou o testemunho como indicador do clima na cidade.
Profissionais de saúde e testemunhas relataram cenas semelhantes ao IranWire, veículo pró reformas. Em Shiraz, no sul, equipes atenderiam uma mulher baleada na cabeça, segundo vídeo compartilhado pela plataforma. No registro, um trabalhador diz nunca ter visto situação assim e questiona quantos pacientes chegaram. A informação ilustra o estresse do sistema médico, mas permanece difícil de verificar amplamente devido a restrições de comunicação e acesso na terceira semana de protestos.
Um médico de Neyshabur, no leste, disse que forças de segurança teriam atirado contra manifestantes do alto de prédios. Ele relatou que uma família de seis pessoas que passava pela área foi atingida, assim como a enfermeira de uma idosa que voltava para casa. O depoimento sugere risco indiscriminado em zonas urbanas, mas não há confirmação independente desses disparos, nem registros oficiais que detalhem as circunstâncias relatadas até este momento.
Após tiros em Najafabad, feridos teriam sido levados ao hospital Montazeri, conforme fonte médica local citada. O profissional disse que familiares correram ao hospital para buscar os corpos de seus filhos e os enterraram com as mesmas roupas. Na tradição muçulmana iraniana, o sepultamento costuma incluir lavagem ritual e tecido branco. A alegação aponta urgência e medo de retenção estatal, mas não pode ser confirmada externamente por causa bloqueio informacional.
Mohammad Lesanpezeshki, médico em Chicago formado em Teerã, disse à CNN que amigos em hospitais iranianos estão sobrecarregados. Ele citou um cirurgião ortopédico que teria relatado vários corpos no pronto socorro e ao menos 30 pessoas baleadas em membros. A descrição sugere uso de munição visando incapacitar, padrão associado a controle de multidões. Ainda assim, os dados dependem de relato indireto e não de boletins hospitalares públicos divulgados pelo Estado.
O mesmo médico afirmou que conhecidos relataram aumento repentino de atendimentos no Hospital Oftalmológico Farabi, em Teerã, com pacientes que teriam projéteis alojados nos olhos. O número mencionado, de 200 a 300 casos, indica possível uso de munição menos letal em direção ao rosto, prática documentada em outros contextos. Porém, sem acesso a registros clínicos, o dado permanece estimativa não verificável. A gravidade do relato amplia preocupação humanitária entre famílias.
A HRANA, agência de ativistas sediada nos EUA, estimou no sábado ao menos 78 manifestantes mortos em 14 dias, e também divulgou total de 116 mortes incluindo 38 integrantes das forças de segurança. A organização afirmou que sete vítimas tinham menos de 18 anos e que 2.638 pessoas foram presas. Também citou 574 locais de protesto em 185 cidades. A CNN ressaltou que não conseguiu verificar independentemente esses números ainda.
A CNN disse ter buscado comentários da Seção de Interesses Iranianos em Washington e do Ministério das Relações Exteriores do Irã. Não houve resposta pública no momento da publicação. Com internet e telefonia limitadas, versões concorrentes prosperam e dificultam checagem. Para a cobertura responsável, cada depoimento precisa ser tratado como relato, não como prova, e números devem ser apresentados como estimativas. Esse cuidado reduz dano e protege fontes no terreno.
No sábado, um funcionário local disse à agência semioficial Tasnim que 100 pessoas foram presas no condado de Baharestan, perto de Teerã, sob acusação de perturbar a ordem e liderar “tumultos”. O anúncio mostra a dimensão do aparato de detenção e a disputa de narrativa, já que termos usados pelo Estado diferem dos usados por manifestantes. Sem acesso a listas e audiências, não é possível avaliar condições de custódia reais.
Um morador de Teerã, 47 anos, disse que o apagão de internet teve efeito contrário, porque tédio e frustração levaram mais pessoas às ruas. Ele afirmou que homens, mulheres e crianças participam, cantando de janelas e reunindo se em grande número. Segundo o relato, muitos esperam a escuridão para sair, buscando reduzir identificação. O sentimento descrito foi de ímpeto imparável, enquanto as manifestações entravam na terceira semana no país inteiro.
O morador acrescentou que a instabilidade política elevou preços de itens básicos, como ovos e leite. Em comunicado na mídia estatal, o chefe do Exército Amir Hatami pediu vigilância, união e coesão para impedir objetivos do “inimigo”. Apesar do apagão, Khamenei seguiu publicando na plataforma X, chamando manifestantes de “bando empenhado na destruição” e criticando Trump. A retórica evidencia disputa por legitimidade em meio à crise econômica que piora diariamente.
O especialista em interrupções de internet Doug Madory disse que, embora as autoridades tenham desligado comunicações, o Irã segue tecnicamente conectado à rede mundial. Segundo ele, seria possível reativar conexões específicas a qualquer momento, e dados indicam um pequeno fluxo de tráfego, “muito pequeno, mas não zero”. A leitura é que usuários considerados importantes mantiveram acesso. Para manifestantes, essa seletividade aumenta sensação de vigilância e dificulta coordenação segura nas ruas.
Créditos: Reportagem extraída da CNN Estados Unidos (usado de acordo com a Cláusula 27a da Lei de Direitos Autorais).
Comentário exclusivo
O relato de “corpos empilhados” precisa ser tratado como evidência testemunhal sob estresse, não como dado consolidado. Em ambientes de repressão e apagão, o jornalismo trabalha com fontes anônimas e sinais indiretos, mas deve explicitar limites de verificação. A técnica recomendada é triangulação: múltiplos relatos independentes, geolocalização de imagens, checagem com padrões de admissão hospitalar e confirmação por profissionais de saúde. Sem isso, o impacto emocional pode ultrapassar a precisão factual e alimentar decisões precipitadas dentro e fora do Irã.
A menção a projéteis nas pernas, olhos e à distância sugere, tecnicamente, emprego de munições de impacto ou fragmentação usadas para dispersar e incapacitar. O padrão de lesões em membros inferiores é compatível com doutrinas de contenção, mas a referência a cabeça e pescoço eleva suspeita de uso letal ou de mira descontrolada. Para análise, é crucial coletar laudos: tipo de ferimento, fragmentos, imagens radiológicas e estatística por hospital. Sem laudo, permanece hipótese que deve ser testada com metodologia pública.
Quando manifestantes descrevem hospitais “completamente caóticos”, isso remete a um evento de múltiplas vítimas sem capacidade de surge. Em gestão de crises, o gargalo não é só leito, mas triagem, insumos hemostáticos, sala cirúrgica e segurança do perímetro. Se familiares retiram corpos rapidamente, perde-se rastreabilidade e aumenta risco sanitário. Para reduzir mortalidade, sistemas precisam de protocolos MCI, corredores de evacuação e proteção de equipes médicas contra intimidação. A ausência desses elementos costuma amplificar trauma coletivo e comprometer confiança duradoura.
O apagão de internet altera a dinâmica tática do protesto e a produção de evidências. Sem conectividade, grupos migram para coordenação presencial e horários noturnos, elevando risco de confrontos e de boatos. A seletividade descrita por Madory, com tráfego mínimo mantido para “usuários importantes”, sugere controle fino de rede, útil para vigilância e contrainformação. Para pesquisadores, isso complica estimativas de mortos e presos, porque reduz registros digitais e dificulta contato com hospitais e famílias aumenta incerteza e dificulta responsabilização posterior.
A disputa semântica é parte do conflito: para o Estado, são “tumultos”; para os opositores, são protestos por dignidade. Essa escolha de palavras orienta repressão, tipifica crimes e molda opinião pública. Quando Khamenei chama manifestantes de “bando empenhado na destruição”, tenta deslocar o debate de preços e direitos para segurança nacional. A resposta de ativistas precisa evitar armadilhas de ingerência externa, porque qualquer sinal de patrocínio estrangeiro tende a reduzir adesão doméstica e legitimar medidas excepcionais em momentos de tensão.
As falas de Trump e Rubio trazem risco de “união pela bandeira”, quando parte da sociedade se alinha ao governo diante de ameaça externa. Para manifestantes, isso desloca a culpa ao estrangeiro e legitima endurecimento. Por isso, o apoio internacional mais eficaz costuma ser indireto: sanções individuais, canais humanitários, suporte à documentação e pressão por observadores. Retórica de ataque militar pode render impacto imediato, mas cobra custo político e estratégico prolongado especialmente se provocar retaliação regional e choque no petróleo.
Os números atribuídos ao Hospital Farabi, de 200 a 300 casos oculares, seriam epidemiologicamente extraordinários e exigiriam validação por amostragem. Em crises, hospitais podem servir como sentinelas: contagem de admissões por turno, tipo de lesão e tempo de espera. Sem transparência, estimativas variam e podem ser manipuladas por ambos os lados. Um protocolo mínimo seria permitir auditoria de organizações médicas neutras, preservando anonimato de pacientes. Isso reduziria especulação e ajudaria a dimensionar necessidades de insumos e cirurgias de urgência imediata.
Para responsabilização futura, a ponte entre hospital e investigação é a medicina legal. Raios X, extração de fragmentos, catalogação e lacre são essenciais para identificar tipo de projétil, distância provável e arma compatível. Mesmo em países com sistema fechado, essas rotinas podem existir, mas sofrem pressão política. Quando vítimas chegam por transporte informal, como no caso do homem com dezenas de projéteis, perde-se o “local do fato”. Isso exige reconstrução por câmeras, depoimentos e análise de padrões de ferimento.
A HRANA cita 2.638 prisões e ao menos sete mortos menores de 18 anos, números que, se confirmados, elevam o patamar de gravidade jurídica. Detenções em massa exigem rastreio: nome, data, local, motivo, acesso a advogado e comunicação familiar. Sem esses dados, aumenta o risco de desaparecimentos e de maus tratos. Para reduzir dano, redes de direitos humanos usam listas criptografadas e verificação cruzada com hospitais e necrotérios. Esse trabalho é lento, mas transforma narrativa em prova para tribunais futuros.
Em estudos de segurança humana, relatos de corpos em hospitais têm efeito multiplicador de trauma. Eles quebram a sensação de normalidade e aceleram radicalização, porque transformam medo difuso em imagem concreta. Ao mesmo tempo, podem gerar pânico e decisões impulsivas, como confrontos sem proteção e busca por vingança. Para evitar escalada, é vital manter rotas de fuga, primeiros socorros comunitários e redes de abrigo. Esse tipo de preparação civil não é “militância”; é redução de danos em contexto de risco.
Se o objetivo internacional é proteger civis, a prioridade deveria ser criar condições de neutralidade médica. Isso inclui garantir que hospitais não sejam locais de detenção, que ambulâncias circulem sem interferência e que profissionais não sejam punidos por atender feridos. Também implica permitir comunicação limitada para chamadas de emergência, mesmo em apagão. Tecnicamente, pode-se habilitar listas brancas de conexões para serviços de saúde, com auditoria. Essa solução reduz mortes evitáveis e melhora qualidade dos dados, sem abrir a rede.
A reportagem aponta um país perto do limite, mas o desfecho depende de variáveis duras: coesão das forças de segurança, caixa do Estado e capacidade de articulação da oposição. O fator informacional atravessa tudo: sem internet, cai a transparência; com propaganda, cai a confiança. Para o leitor, o mais seguro é ceticismo metódico: reconhecer o sofrimento relatado, mas exigir confirmação de números e imagens. Esse equilíbrio evita negação e também evita sensacionalismo que usa vítimas em disputa política externa alheia.
Por Pr. Rilson Mota
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