WASHINGTON/TEERÃ, 13 de janeiro de 2026
O presidente Donald Trump afirmou nesta terça-feira que cancelou “todas as reuniões” com autoridades do governo iraniano e pediu que manifestantes no Irã “continuem protestando” e “tomem o controle das instituições governamentais”. A declaração foi publicada na Truth Social. O tom marca uma escalada política, após Trump dizer na véspera que Teerã buscou reabrir negociações sobre o acordo nuclear. Segundo o presidente, a pausa durará até cessar a repressão.
Trump afirmou que só considerará retomada diplomática “quando cessar o massacre indiscriminado de manifestantes”. Ele não detalhou que tipo de “ajuda” estaria “a caminho”, nem se a expressão se refere a medidas econômicas, tecnológicas ou de inteligência. A ausência de especificação dificulta avaliar consequências imediatas para a segurança dos protestos. Analistas lembram que mensagens públicas desse tipo podem elevar o risco aos civis no terreno e ampliar a pressão estatal.
De acordo com o relato divulgado, Trump havia dito na noite anterior que Teerã entrou em contato com Washington para discutir o acordo nuclear. O ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araqchi, afirmou ao New York Times que falou com o enviado americano Steve Witkoff e que o canal permanece aberto. A Casa Branca, por sua porta-voz, reiterou que a diplomacia é “a primeira opção”, mas não descreveu condições concretas.
Trump também disse que está em contato com líderes da oposição iraniana e que os militares dos EUA “analisam a situação”, segundo o Haaretz. Fontes americanas citadas pelo New York Times afirmaram que o presidente foi informado sobre alternativas, de ataque cibernético a alvos do aparato de segurança interno, além de hipóteses mais amplas envolvendo instalações nucleares. A reportagem ressalta que não há decisão final anunciada até agora, em nota.
No Irã, os protestos se espalharam desde o fim de dezembro, impulsionados por inflação, desemprego e perda de renda, segundo relatos de organizações de direitos humanos. Em resposta, o governo impôs restrições de internet, o que limita a checagem independente e aumenta o risco de desinformação. O Haaretz informou que vídeos e testemunhos circulam por rotas alternativas, frequentemente sem metadados completos, exigindo cautela na interpretação e cruzamento com fontes múltiplas.
Um funcionário do Ministério da Saúde iraniano, citado pelo New York Times sob anonimato, estimou cerca de 3.000 mortos em protestos pelo país. O mesmo relato diz que haveria centenas de integrantes das forças de segurança entre as vítimas e atribui parte da violência a “terroristas”. Outro servidor, também não identificado, teria visto relatório interno com número similar. O dado não pôde ser confirmado por observadores independentes até o momento.
Autoridades iranianas vêm descrevendo os protestos como ameaça fomentada do exterior e alertam cidadãos para não se juntarem a “mercenários”. Esse enquadramento é recorrente em crises internas, porque tenta isolar a dissidência e justificar uso ampliado de força. Organizações como a Human Rights Watch sustentam que o Estado é responsável por mortes e ferimentos durante manifestações e pedem investigação independente, com preservação de evidências e acesso a centros de detenção.
No tabuleiro regional, o comandante do Exército iraniano, Amir Hatami, afirmou que o país leva a sério ameaças de Israel e se prepara “adequadamente”. Do lado israelense, um porta-voz das Forças de Defesa de Israel declarou que os protestos são questão interna, em tentativa de conter rumores. Ainda assim, a corporação disse estar em alerta para “surpresas”. O equilíbrio entre dissuasão e não intervenção pública é delicado neste cenário volátil.
Em Jerusalém, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu realizou consultas de segurança nos últimos dias e deve levar o tema ao gabinete, segundo o Haaretz. A preocupação declarada é acompanhar a evolução dos protestos e preparar respostas a uma eventual escalada, inclusive ataques contra Israel. Em crises desse tipo, serviços de inteligência monitoram sinais de ruptura institucional, movimentação de forças e ataques por procuração. Até agora, Israel evita assumir protagonismo na crise.
O apelo de Trump para que manifestantes “tomem o controle” de instituições governamentais é incomum em linguagem presidencial, por sugerir mudança de regime. Em direito internacional, esse tipo de incentivo pode ser interpretado pelo Irã como interferência externa, elevando pretexto para repressão e acusação de traição. Para os protestos, o efeito pode ser ambíguo: inspira mobilização, mas também aumenta risco de enquadramento penal e de violência por forças de segurança.
A expressão “a ajuda está a caminho” foi interpretada por analistas como possível referência a apoio tecnológico, como terminais de internet via satélite, ou a ações de pressão econômica. O New York Times citou fontes que mencionam fornecimento de terminais Starlink para ampliar comunicação dos manifestantes, além de ataques cibernéticos. Nenhuma dessas hipóteses foi confirmada oficialmente. Em ambientes autoritários, aumentar conectividade pode salvar vidas, mas expõe a vigilância e infiltração.
A vinculação explícita entre retomada do diálogo nuclear e interrupção da repressão cria novo condicionante político. Tradicionalmente, negociações nucleares focam salvaguardas, inspeções e cronogramas de enriquecimento. Ao inserir direitos humanos como pré-condição, Washington amplia a pauta e reduz margem de manobra rápida. Para Teerã, aceitar o requisito pode ser visto como fraqueza doméstica; rejeitar, por outro lado, tende a intensificar isolamento econômico e ampliar protestos se a crise social persistir.
Ao anunciar o cancelamento de encontros, Trump envia sinal também a aliados europeus e regionais que buscam preservar canais com Teerã. Em arquitetura de sanções, coordenação entre parceiros é essencial para efetividade, mas divergências abrem rotas de escape financeiro. Ainda não está claro se a suspensão se aplica a canais de interlocução, usados para troca de prisioneiros e desescalada. Diplomatas observam que “cancelar reuniões” pode ser retórica, não fechamento total.
No terreno iraniano, o aparato de segurança é composto por múltiplas forças com competências sobre ordem pública, inteligência e proteção do regime, o que tende a gerar respostas assimétricas nas ruas. Em ondas anteriores, a repressão combinou prisões, interrogatórios e julgamentos acelerados. Se Washington fornecer suporte tecnológico aos manifestantes, Teerã pode reagir com rastreamento digital e punições exemplares. O resultado pode ser aumento de vítimas, mesmo sem intervenção militar direta.
Além do bloqueio de internet, relatos esparsos mencionam dificuldades de energia e serviços em algumas regiões, mas não há confirmação abrangente. Em crises, cortes de infraestrutura podem ser efeito colateral de confrontos ou ação deliberada para reduzir coordenação. Para a população, o impacto é imediato: menos acesso a informação, menor capacidade de solicitar socorro e dificuldade de registrar abusos. O apagão informacional transforma mortes em disputa política e amplia sofrimento.
Fontes americanas citadas pelo New York Times disseram que um ataque a instalações nucleares é uma das possibilidades, mas não a mais provável no curto prazo. Opções consideradas incluem ações cirúrgicas, como ofensivas cibernéticas e ataques ao aparato de repressão, cuja execução levaria “vários dias”. Medidas assim carregam risco de escalada regional e retaliação por grupos alinhados ao Irã. Até que haja ato formal, o cenário permanece especulativo para agora.
Especialistas em resolução de conflitos apontam que declarações públicas de apoio externo podem fortalecer moral dos manifestantes, mas raramente substituem organização interna e proteção internacional efetiva. Sem observadores independentes, acesso humanitário e mecanismos de responsabilização, a violência tende a permanecer invisível. Ao mesmo tempo, o discurso de Washington pode ser usado por Teerã para legitimar repressão e reduzir dissenso a “ameaça estrangeira”. O dilema é apoiar sem aumentar o risco.
Até o momento, não há cronograma público para eventual retomada do diálogo nuclear, nem confirmação sobre o tipo de assistência prometida por Trump. Do lado iraniano, a restrição de internet e o volume de mortes relatado por fontes anônimas dificultam verificação independente. A evolução dependerá de três fatores: intensidade da repressão, coesão dos protestos e decisões externas de Washington e aliados. Em cenário volátil, cada declaração altera cálculos de risco.
Créditos: Reportagem extraída do Jornal Haaretz, em Irael. (usado de acordo com a Cláusula 27a da Lei de Direitos Autorais).
Comentário exclusivo
Do ponto de vista de segurança internacional, Trump mudou o enquadramento de “negociação nuclear” para “mudança de regime” ao pedir que manifestantes tomem instituições. Essa frase, tecnicamente, é um gatilho de escalada: autoriza o regime a tratar protesto como insurreição patrocinada do exterior. Em operações de controle interno, isso costuma justificar emprego de força letal, tribunais de exceção e prisões em massa. O custo humano tende a subir justamente após declarações externas maximalistas sem que haja proteção real aos civis.
O cancelamento de reuniões é sinal clássico de coerção diplomática, mas só funciona se vier acompanhado de instrumentos mensuráveis: sanções, isolamento financeiro, garantias a refugiados e canais humanitários. Ao condicionar a retomada do acordo nuclear ao fim do “massacre”, Washington mistura agendas de não proliferação e direitos humanos. Isso pode ser correto moralmente, porém complexo operacionalmente: amplia pontos de veto e reduz espaço para acordos parciais, que às vezes salvam vidas ao reduzir tensão desde que monitorados por inspeção independente.
A cifra de 3.000 mortos, atribuída a fonte anônima do Ministério da Saúde iraniano, deve ser tratada como estimativa de alto risco informacional. Em apagão de internet, números podem ser inflados ou subnotificados por interesse político. A técnica recomendada é triangulação: comparação de listas de hospitais, registros forenses, imagens geolocalizadas e relatos familiares, com séries temporais e margens de erro. Sem isso, a discussão vira guerra de narrativas e atrapalha responsabilização inclusive para decisões de sanção, asilo e ajuda humanitária.
O possível fornecimento de terminais satelitais aos manifestantes parece solução simples, mas tem complexidade de contrainteligência. Conectividade amplia coordenação e documentação de abusos, porém também cria trilhas técnicas: localização de antenas, padrões de tráfego e infiltração por agentes. Em regimes com capacidade cibernética, a reação pode ser bloqueio físico, interferência eletromagnética e prisões baseadas em metadados. Se a “ajuda” for tecnológica, deve vir com treinamento de segurança digital e redundância senão vira presente envenenado que aumenta a vulnerabilidade dos líderes.
Israel tenta manter a mensagem de “assunto interno” para não se tornar personagem central, mas prepara-se para contingências. Esse duplo movimento é típico de gestão de escalada: reduzir pretexto para o Irã externalizar a crise, enquanto se reforça prontidão contra ataques por procuração. O risco é que qualquer operação americana, mesmo cibernética, seja lida como coordenação com Israel, aumentando pressão sobre fronteiras e rotas marítimas. Em segurança regional, percepção pesa tanto quanto fato e pode disparar decisões rápidas, pouco reversíveis.
Protestos de massa sobrevivem por três pilares: adesão, logística e legitimidade. Quando um líder estrangeiro endossa abertamente a derrubada de instituições, ele pode fortalecer adesão, mas erode legitimidade doméstica junto a indecisos, que passam a temer guerra civil ou intervenção. Regimes exploram esse medo com propaganda e repressão seletiva. Para reduzir risco, apoio externo deveria priorizar proteção: corredores humanitários, pressão por libertação de presos e mecanismos internacionais de investigação, não instruções operacionais à rua que, no fim, ninguém consegue controlar.
A raiz econômica do levante não desaparece com repressão. Inflação e escassez corroem confiança e empurram novas camadas sociais para a rua. Se Washington intensificar sanções ou tarifas paralelas, pode aumentar o custo do regime, mas também piorar a vida cotidiana, criando um ciclo em que a população paga duas vezes: pela crise e pela punição externa. Políticas de pressão precisam de desenho fino, com exceções humanitárias, para não alimentar a narrativa oficial de cerco e “culpa estrangeira” permanente, eficaz.
Há, ainda, o componente jurídico: convocar cidadãos de outro país a tomar instituições pode colidir com princípios de soberania e não intervenção, embora governos argumentem “responsabilidade de proteger” diante de massacres. Esse debate é técnico e exige evidência robusta. Sem mandato multilateral, ações unilaterais ampliam risco de contestação e de escalada. Se os EUA desejam preservar legitimidade, deveriam buscar mecanismos internacionais de apuração e pressão, evitando frases que soem como comando operacional. Palavras, em crise, são munição para todos lados.
Por Pr. Rilson Mota
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