Nova York , 08 de janeiro de 2026
A Organização das Nações Unidas (ONU) projeta que o PIB do Brasil cresça 2,0% em 2026, ano de eleição presidencial, segundo relatório divulgado nesta quinta-feira, 8, em Nova York. Se confirmada, a taxa representa desaceleração frente a 2025, quando o país teria avançado 2,5%. A entidade também estima que o ritmo volte a acelerar apenas em 2027, para 2,3%. O documento compila projeções e analisa juros, inflação e contas públicas.
Na atualização, a ONU manteve a estimativa para 2026 e elevou a projeção de 2025 em 0,7 ponto porcentual. Mesmo com a revisão, a organização descreve 2025 como ano de perda de fôlego frente a 2024, quando o Brasil teria crescido 3,4%. Para a entidade, o cenário combina efeito defasado da política monetária, condições financeiras apertadas e impulso fiscal parcial no curto prazo, enquanto investimento e crédito reagem com atraso.
O relatório afirma que a desaceleração projetada decorre, em grande parte, do aperto monetário acumulado, que levou as taxas de juros a níveis mais altos em décadas. Segundo a ONU, o custo do capital segue restringindo investimento produtivo e decisões de expansão, sobretudo em setores intensivos em financiamento. A entidade avalia, porém, que uma postura fiscal “moderadamente expansionista” tende a amortecer parte do impacto, sustentando demanda até melhora do crédito.
Outro fator citado são tarifas dos Estados Unidos, descritas como de até 50% sobre ampla gama de importações brasileiras. A ONU ressalva que o efeito agregado tende a ser limitado porque os EUA respondem por cerca de 12% das exportações do Brasil. O relatório acrescenta que o governo americano recuou em parte das taxações para determinados segmentos. Ainda assim, a organização aponta aumento de incerteza e custos comerciais no curto.
Na comparação regional, a ONU estima que o Brasil crescerá mais do que a média da América Latina e do Caribe em 2025, quando a região teria avançado 2,4%. Nos anos seguintes, porém, o país pode ficar abaixo do ritmo regional, segundo o documento. Em relação ao México e à América Central, o Brasil manteria desempenho superior em 2025 e 2026, mas a entidade prevê convergência em 2027 na margem.
A ONU reforça que os desafios fiscais permanecem no centro do risco macroeconômico. Segundo o relatório, a dívida bruta do governo geral superou 90% do PIB e atingiu 91,4% em 2025, ante 87,3% em 2024. O patamar fica acima da média de países em desenvolvimento, estimada em 76,9%. Para a entidade, o nível de endividamento reduz espaço para políticas anticíclicas e eleva o custo de financiamento para o setor público.
No diagnóstico da ONU, desvios recentes do arcabouço fiscal dificultam reforçar credibilidade. O relatório menciona isenções temporárias, despesas acima do planejado e uso de linhas de crédito extraordinárias como exemplos de pressão. Ainda que as autoridades reafirmem compromisso de médio prazo com consolidação gradual, a entidade afirma que a execução recente aumenta a percepção de risco. Para investidores, credibilidade fiscal influencia prêmios, câmbio e o custo de rolagem da dívida.
Na frente de preços, a ONU afirma que o Brasil não deve cumprir a meta de inflação em 2025. A organização estima IPCA de 5,0%, acima da meta de 3,0%, com tolerância de 1,5 ponto porcentual. O relatório diz que a inflação permanece acima do objetivo apesar de juros elevados. A entidade projeta desaceleração para 4,3% em 2026 e 4,0% em 2027, indicando convergência ao alvo do Banco Central.
Sobre política monetária, a ONU classifica o Brasil como exceção relevante à tendência de afrouxamento observada em economias emergentes em 2025. Segundo o relatório, após um aperto substancial na primeira metade de 2025, o Banco Central manteve a taxa de política em 15%, a mais alta desde 2006. A organização prevê que um ciclo de queda possa começar em 2026, condicionado à moderação inflacionária e à melhora das expectativas futuras.
O relatório também destaca resultados no mercado de trabalho. A ONU afirma que o Brasil reduziu desemprego e elevou salário mínimo em 2025, chegando ao índice de desocupação em décadas. A taxa teria ficado em 5,2% em novembro de 2025. A organização não trata o dado como garantia de crescimento, mas suporte ao consumo. Para 2026, o documento sugere que emprego e renda dependem do investimento, afetado por juros.
No mesmo relatório, a ONU projeta que a economia dos Estados Unidos manterá crescimento moderado, apoiada por consumo resiliente e investimento em tecnologia, mas cercada por incertezas tarifárias e fiscais. O órgão estima que o PIB americano cresceu 1,9% em 2025, abaixo de 2,8% em 2024, e deve avançar 2,0% em 2026. Para 2027, a previsão é de 2,2%, com continuidade de políticas macroeconômicas mais favoráveis e demanda doméstica firme.
A ONU destaca que a infraestrutura ligada à inteligência artificial é um dos motores do investimento nos EUA, com gastos em equipamentos, software e data centers. O relatório ressalva que parte desse movimento pode ter sido antecipada por incerteza comercial, deixando o ciclo vulnerável a desaceleração temporária. O documento acrescenta que tarifas elevaram custos e pressionaram mercados, ainda que o impacto tenha sido mais moderado do que o inicialmente esperado.
Na China, a ONU estima que o PIB cresceu 4,9% em 2025 e deve desacelerar para 4,6% em 2026, com 4,5% em 2027. O relatório afirma que o primeiro semestre de 2025 foi robusto, apoiado por exportações antecipadas antes de tarifas americanas e por consumo doméstico mais forte. No terceiro trimestre, porém, o ritmo teria perdido fôlego, com desaceleração do varejo e sinais de fraqueza do investimento em ativos fixos.
Para a Europa, a ONU prevê crescimento contido em 2026, pressionado por incertezas geopolíticas e níveis elevados de tarifas. A projeção para a União Europeia é de 1,3% em 2026 e 1,6% em 2027, após 1,5% em 2025. No Reino Unido, a entidade estima 1,1% em 2026 e 1,3% em 2027, com desaceleração ante 2025, citando política fiscal mais rígida e inflação persistente como fatores de restrição no curto prazo.
A ONU descreve a América Latina e o Caribe como região resiliente no curto prazo, sustentada por consumo privado e recuperação gradual do investimento. A projeção é de 2,3% em 2026, após 2,4% em 2025, com 2,5% em 2027. O relatório alerta que esse ritmo é insuficiente para melhorar mercados de trabalho. Entre os riscos, cita incerteza global, fragmentação do comércio e impactos de tarifas e imigração dos EUA potenciais.
Para o Brasil, o relatório combina crescimento moderado, inflação acima da meta e juros elevados, com foco nas contas públicas. A ONU sugere que credibilidade fiscal e expectativas ancoradas reduzem prêmios de risco e favorecem investimento. A projeção de aceleração em 2027 indica transição gradual para condições financeiras menos restritivas. Até lá, o desempenho tende a depender de produtividade, estabilidade institucional e execução consistente de políticas em todos os níveis.
Comentário
Do ponto de vista técnico, crescer 2,0% com dívida acima de 90% do PIB e juros em 15% significa operar com freio de mão puxado. O investimento privado reage ao custo do capital e ao prêmio de risco; quando ambos sobem, o PIB potencial cai. A projeção da ONU não é torcida, é consequência de parâmetros. Em vez de discutir números, o país deveria discutir como reduzir incerteza e destravar produtividade sem recorrer a estímulos passageiros que só adiam ajustes.
A política de gasto do governo é o elo que mais rapidamente corrói credibilidade quando não vem acompanhada de metas executáveis e cortes compensatórios. Despesa permanente financiada por receita temporária cria buraco estrutural e empurra o Tesouro para mais dívida, elevando juros futuros. O relatório menciona isenções e créditos extraordinários; esses atalhos reduzem a força do arcabouço fiscal. Sem disciplina, a economia entra num ciclo de “crescer pouco e pagar caro” por anos e isso penaliza investimentos de longo prazo.
A cobrança de altos impostos sobre quem gera empregos tem efeito técnico mensurável: reduz margem, encarece capital de giro e desestimula formalização. Quando a carga cresce sem contrapartida de simplificação, o empresário recalibra planos, posterga expansão e reduz contratações. A soma de tributos, obrigações acessórias e incerteza regulatória funciona como imposto oculto. Em um ambiente de juros elevados, cada ponto adicional de carga vira menos investimento e mais repasse de preços, alimentando inflação e corroendo competitividade frente a pares regionais.
A “tragédia anunciada” de falta de responsabilidade fiscal não é retórica, é aritmética. Dívida maior exige juros maiores para rolar vencimentos; juros maiores aumentam o serviço da dívida; e o serviço da dívida comprime orçamento para saúde, educação e infraestrutura. Quando o ajuste não vem por escolha, ele vem por choque: corte abrupto, aumento emergencial de impostos ou inflação. O relatório da ONU sinaliza o início desse estresse ao apontar dívida crescente e credibilidade em teste já no médio prazo.
Além de juros e dívida, a confiança do investidor é corroída por repetidos episódios de suspeitas e denúncias de corrupção na esfera pública, ainda que nem todos resultem em condenação. O efeito econômico não espera sentença: ele aparece como prêmio de risco, exigência de retorno maior e seletividade de capital. Quando contratos públicos são questionados, o investidor precifica risco de ruptura, atraso e litigância. Em ambiente competitivo, essa percepção empurra projetos para outros países e reduz o potencial de crescimento.
Insegurança jurídica é outro freio silencioso. Mudanças frequentes de regras, interpretações divergentes e decisões retroativas afetam planejamento e aumentam custo de conformidade. O investidor, ao projetar retorno, precisa estimar imposto, licenças, obrigações trabalhistas e estabilidade regulatória; quando esses parâmetros são voláteis, o projeto exige prêmio maior ou não sai do papel. A própria discussão fiscal vira fonte de insegurança quando metas são revistas no meio do caminho. Resultado: menos investimento, menor produtividade e crescimento abaixo do necessário para prosperidade ampla.
Se o país quer sair do corredor de 2%, precisa atacar variáveis estruturais: simplificar tributos, reduzir gasto ineficiente, proteger o arcabouço fiscal e elevar qualidade do investimento público. Cortar desperdício não é austeridade cega; é liberar espaço para políticas com retorno social mensurável. Do lado privado, estabilidade regulatória e segurança contratual reduzem custo de capital. Sem isso, o Banco Central continuará carregando sozinho o combate à inflação via juros, e o crescimento seguirá moderado, como aponta a ONU no horizonte.
O relatório da ONU funciona como termômetro externo: ele traduz, em números, como o mundo enxerga o risco brasileiro. Em ano eleitoral, a tentação é prometer mais gasto e mais subsídio; tecnicamente, isso pode produzir alívio curto e custo longo, via dívida e juros. A agenda de credibilidade exige previsibilidade fiscal, integridade na gestão e respeito a contratos. Sem esses pilares, a desaceleração de 2026 vira padrão, e a aceleração prometida para 2027 pode ficar apenas no papel de novo.
Por Pr. Rilson Mota
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