New York, 19 de janeiro de 2026
Em artigo publicado no domingo (18) no jornal The New York Times, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou os bombardeios dos Estados Unidos em território venezuelano e a “captura” do presidente do país, ocorridos no início de janeiro. No texto, Lula descreve o episódio como mais um sinal de erosão do direito internacional e da ordem multilateral construída após a Segunda Guerra Mundial, com impactos potenciais sobre estabilidade global e regional.
O presidente argumenta que grandes potências estariam recorrendo a ações que enfraquecem a autoridade da Organização das Nações Unidas (ONU) e, em especial, do Conselho de Segurança. Segundo Lula, quando o uso da força deixa de ser exceção e se torna regra, a paz e a segurança passam a ser ameaçadas. A formulação desloca o debate do caso venezuelano para uma crítica mais ampla ao padrão de decisões unilaterais em disputas internacionais.
Lula também afirma que a aplicação seletiva de normas internacionais compromete o sistema global. Para ele, se regras são seguidas apenas quando convém, instala-se uma espécie de anomia que fragiliza Estados e instituições multilaterais. O argumento central do texto é que sociedades livres, inclusivas e democráticas exigem regras coletivamente acordadas, e que o desrespeito a essas regras mina o próprio fundamento do convívio internacional, inclusive em comércio, investimentos e cooperação.
No trecho dedicado à democracia, Lula reconhece que líderes de qualquer país podem ser responsabilizados por ações contra direitos fundamentais. Porém, sustenta que não seria legítimo que outro Estado se atribua o papel de “fazer justiça” por conta própria. O presidente associa ações unilaterais a instabilidade, desorganização do comércio e aumento de fluxos de refugiados, além de enfraquecimento da capacidade estatal de enfrentar crime organizado e outros desafios transnacionais, tema sensível na agenda brasileira.
O presidente afirma ser “particularmente preocupante” que práticas desse tipo atinjam a América Latina e o Caribe. Ele sustenta que a região busca a paz pela igualdade soberana, rejeição ao uso da força e defesa da autodeterminação dos povos. Lula destaca que, em mais de 200 anos de história independente, seria a primeira vez que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos, apontando efeito simbólico e político do episódio.
Lula afirma que América Latina e Caribe, com mais de 660 milhões de habitantes, têm interesses próprios e “sonhos” a defender. Em um mundo que descreve como multipolar, ele defende a universalidade das relações externas e afirma que nenhum país deveria ter suas relações questionadas por buscar parcerias diversas. Também declara que não haverá subserviência a empreendimentos hegemônicos, priorizando uma visão de autonomia estratégica e pluralidade diplomática.
Na agenda regional, Lula propõe superar diferenças ideológicas por meio de cooperação em infraestrutura física e digital, empregos, renda e ampliação do comércio intra-regional e com países de fora. O presidente defende mobilização de recursos para combater fome, pobreza, tráfico de drogas e mudanças climáticas. Ao associar diplomacia e economia, o texto tenta conectar o discurso de princípios a uma agenda prática de desenvolvimento, com foco em resultados sociais.
Sobre a Venezuela, Lula defende que o futuro do país deve permanecer nas mãos de seu povo, apostando em um processo político inclusivo liderado por venezuelanos. Ele afirma que apenas um processo desse tipo levaria a um futuro democrático e sustentável. A formulação procura equilibrar defesa de soberania com uma referência a democracia, sem detalhar mecanismos, prazos ou parâmetros verificáveis, ponto que costuma gerar debate sobre efetividade e sinais concretos de pressão diplomática.
Na relação bilateral com os Estados Unidos, Lula descreve Brasil e EUA como as duas democracias mais populosas do continente americano e afirma que unir esforços em investimento, comércio e combate ao crime organizado seria o caminho. A mensagem combina crítica a ações militares e apelo por cooperação pragmática, buscando manter a ponte aberta apesar do tensionamento. O texto sugere que há espaço para parceria, desde que respeitados princípios multilaterais e autonomia.
A publicação em um veículo internacional amplia alcance e também aumenta o custo político de cada frase. Em diplomacia, forma e fórum importam: publicar num jornal de grande visibilidade sinaliza posicionamento, mas também pode cristalizar expectativas e reações. A discussão que se abre, dentro e fora do Brasil, é se o governo conseguirá traduzir o discurso em entregas concretas para o país — segurança, economia e credibilidade — enquanto navega uma conjuntura externa mais polarizada e sensível.
Comentário exclusivo
O artigo tem um mérito conceitual: defender multilateralismo e previsibilidade é razoável, porque comércio, investimento e cooperação dependem de regras. O problema é a prioridade política. Um país continental como o Brasil não pode operar como se política externa fosse palco ideológico permanente. Quando cada gesto público vira munição para reação externa — inclusive na forma de medidas econômicas — quem paga é o cidadão, não o Palácio. Diplomacia precisa de princípios, mas também de cálculo de custo-benefício e gestão de risco.
Há um risco de narrativa: o governo fala em “ordem internacional” enquanto, internamente, parte da sociedade percebe desordem em temas básicos. A crítica que aparece nas ruas não é sobre a ONU; é sobre inflação percebida, sensação de insegurança e serviços públicos. Se o presidente quer liderar um debate global, precisa ao mesmo tempo demonstrar controle interno. Sem isso, a política externa vira um contraste desconfortável: discurso sofisticado para fora, fragilidade sentida para dentro.
O embate com os Estados Unidos, quando vira disputa pública recorrente, tende a ser assimétrico. O Brasil tem menos poder de fogo econômico e menos margem de retaliação. Se a escalada retórica produzir barreiras comerciais, tarifas ou travas regulatórias, o impacto cai sobre exportadores, cadeias de suprimentos e empregos. E, na prática, isso vira inflação e aperto fiscal. O presidente pode ter razão em princípios, mas governar exige prever reação. Em política externa, intenção não basta; consequência é o que conta.
O texto fala em “desorganização do comércio e investimentos” causada por ações unilaterais. Essa frase deveria servir como alerta ao próprio governo: qualquer ruído diplomático também desorganiza comércio e investimentos. Investidor odeia imprevisibilidade. Quando o Brasil passa imagem de alinhamento por afinidade ideológica, e não por estratégia, aumenta o prêmio de risco. O país pode defender soberania sem parecer errático. A pergunta que o mercado faz não é “quem está certo moralmente”, e sim “qual é o custo da posição?”.
O ponto da corrupção é corrosivo porque destrói legitimidade. Quando há percepção de corrupção em níveis diversos, o governo perde autoridade para exigir sacrifício tributário do contribuinte. A crítica de “alto imposto e novos impostos” se torna politicamente tóxica se não vier acompanhada de produtividade do gasto e entrega de serviço. A população aceita pagar quando vê retorno. Quando não vê, a carga vira punição. Em democracia, isso se converte em rejeição, e rejeição altera decisões.
A segurança pública é o calcanhar de Aquiles. Quando especialistas alertam sobre expansão de facções, o debate precisa sair do slogan e entrar no orçamento, no sistema prisional, em inteligência e em fronteiras. Não adianta dizer “combater crime organizado” no artigo e, internamente, não mostrar resultados mensuráveis. Facção não é fenômeno retórico; é estrutura logística com caixa, armas, drogas e controle territorial. Se o Estado não recuperar governança, o país vira refém. E nenhum discurso na ONU resolve isso.
A rejeição ao presidente acende luz vermelha porque ela tende a moldar o comportamento do governo. Quando 2026 se aproxima, cresce a tentação de decisões de curto prazo: gastos para popularidade, medidas simbólicas, narrativas para base. Esse é o momento em que a governança precisa ser mais técnica, não mais eleitoral. Se o governo fizer política pública como campanha, ele pode até ganhar tempo, mas perde o futuro. País continental exige planejamento, previsibilidade e disciplina fiscal — não improviso.
A crítica “viramos anões diplomáticos” tem um núcleo: relevância internacional depende de credibilidade doméstica. País respeitado é país que entrega estabilidade, previsibilidade regulatória, crescimento e capacidade de segurança. Sem isso, a retórica externa soa como compensação. O Brasil tem potencial para ser ponte e mediador, mas mediador precisa de confiança dos dois lados. Se o governo se posiciona como palanque de blocos, perde a chance de ser articulador. Diplomacia eficaz é a que reduz conflito, não a que coleciona inimigos.
O trecho sobre “deixar Maduro, Irã e americanos de lado e cuidar do Brasil” traduz uma demanda social: foco. Cuidar do povo brasileiro não é só transferir renda; é construir prosperidade. Benefícios podem ser rede de proteção, mas não podem ser projeto de vida. O que dá dignidade é emprego, produtividade, educação e ambiente de negócios que permita crescer. Estado que substitui o mercado e a sociedade por dependência cria fragilidade. O ideal é Estado que habilita, não que controla.
Por fim, a agenda positiva proposta por Lula — infraestrutura, empregos, comércio, combate à fome e ao tráfico — é a parte mais promissora, porque fala de entrega. Mas ela precisa sair do texto e entrar em indicadores: obras com cronograma, custo e transparência; metas de redução de homicídios; combate a desvio de recursos; simplificação tributária real. A política externa deve ser extensão dessa entrega interna, não substituto. O Brasil precisa de menos ideologia e mais gestão. Só assim o país para de perder — e o povo para de pagar a conta.
Por Pr. Rilson Mota
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