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Indústria sem fôlego: pesquisa aponta que 8 em 10 empresas tiveram dificuldade para conseguir crédito

Rilson Mota por Rilson Mota
19 de janeiro de 2026
em Brasil, Economia, Política
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Indústria sem fôlego: pesquisa aponta que 8 em 10 empresas tiveram dificuldade para conseguir crédito

© REUTERS/Washington Alves/

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Guarapuava, 19 de janeiro de 2026

Uma sondagem da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada nesta segunda-feira (19) com apoio da Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), indica que o crédito segue travado para grande parte do setor industrial. Segundo o levantamento, oito em cada dez empresas relataram dificuldades para obter financiamento. O diagnóstico se concentra em operações de curto e médio prazo, até cinco anos, mas também aparece no crédito de longo prazo nesta fase atual.

Entre os empresários que tentaram crédito de curto ou médio prazo e encontraram barreiras, 80% apontaram os juros como principal entrave, diz a sondagem. Em seguida, surgem exigências de garantias reais, como imóveis e máquinas, citadas por 32%. Outros 17% mencionaram falta de linhas compatíveis com a necessidade do negócio, seja para capital de giro, modernização de equipamentos ou reforço de caixa durante oscilações de demanda ao longo do ano.

Para financiamentos acima de cinco anos, o padrão se repete, com 71% dos industriais atribuindo a dificuldade ao custo dos juros. A exigência de garantias apareceu para 31% e a ausência de linhas adequadas para 17%. Nesse horizonte, a sensibilidade é maior porque projetos de expansão, inovação e aumento de capacidade produtiva dependem de prazos longos e previsibilidade. Sem isso, investimentos são adiados e produtividade estagna em diversos segmentos industriais.

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A CNI avalia que a política monetária tem mantido o crédito caro. Em declaração citada no estudo, a analista Maria Virgínia Colusso afirma que, com a Selic em 15% ao ano e juros reais em torno de 10%, o financiamento encarece e desestimula planos de expansão e inovação. Para a indústria, o efeito é duplo: aumenta o custo financeiro e reduz a disposição de assumir risco produtivo no curto prazo.

Os números mostram retração na procura por empréstimos. Nos seis meses anteriores à pesquisa, 54% das empresas não buscaram crédito de longo prazo e 49% não procuraram operações de curto ou médio prazo. Apenas 26% contrataram ou renovaram crédito de curto prazo, enquanto no longo prazo esse percentual caiu para 17%. Para a CNI, o dado sugere que o custo elevado tem efeito inibidor antes mesmo da análise bancária tradicional.

O insucesso também aparece entre quem tentou. Quase um terço das empresas que buscaram crédito de longo prazo não conseguiu fechar a operação, segundo a sondagem. No crédito de curto ou médio prazo, cerca de 20% ficaram sem acesso. A diferença indica que quanto maior o prazo, maior o rigor na seleção e na exigência de garantias, o que penaliza especialmente negócios em ciclo de investimento de maior risco tecnológico.

Quando se observa o porte, as médias empresas aparecem mais pressionadas. No crédito de curto ou médio prazo, 26% delas não obtiveram recursos, contra 21% das pequenas e 16% das grandes. No financiamento de longo prazo, a taxa de frustração sobe: 43% nas médias, 37% nas pequenas e 27% nas grandes. O recorte sugere que o “meio do caminho” sofre com escala insuficiente e garantias limitadas para negociar com bancos.

Além do acesso, a percepção sobre as condições de crédito piorou. Para 35% das empresas, o crédito de curto ou médio prazo ficou mais difícil; no longo prazo, 33% avaliaram piora. A maioria, 47%, disse que o ambiente permaneceu parecido, e apenas 14% relataram melhora no curto/médio e 12% no longo. O resultado reforça a leitura de que a restrição se mantém difundida mesmo entre setores com demanda relativamente aquecida.

A sondagem também mediu o uso do chamado risco sacado, modalidade de antecipação de recebíveis em que um banco paga o fornecedor e o comprador quita depois. Apenas 13% das indústrias contrataram esse tipo de operação nos últimos 12 meses, e 5% pretendiam contratar. A maioria não contratou nem pretendia (54%), enquanto 29% não souberam responder. Para analistas, o baixo uso pode refletir custo e desconhecimento na gestão financeira cotidiana.

A pesquisa ouviu 1.789 empresas industriais entre 1º e 12 de agosto do ano passado: 713 de pequeno porte, 637 médias e 439 grandes. O desenho permite comparar realidades distintas, mas aponta um problema comum: financiar produção e investimento ficou mais difícil. Para a indústria, a mensagem é objetiva: sem crédito acessível e previsível, o país desacelera inovação, perde competitividade e alonga a produtividade, com impacto em empregos e renda.


Comentário exclusivo

A sensação descrita pela pesquisa da CNI lembra a comédia dos anos 80, Apertem os Cintos. O Piloto Sumiu!: o avião segue voando, mas o painel pisca alerta o tempo todo. Quando 80% das indústrias dizem que não conseguem crédito, o problema não é “do banco”, é macroeconomia. Juros altos não caem por pedido; caem quando o país convence que tem disciplina fiscal, previsibilidade regulatória e rumo claro. Sem isso, o custo dinheiro vira freio e a produção perde altitude.

Há um elo direto entre contas públicas e juros: se o mercado enxerga gasto crescente e arrecadação incerta, exige prêmio maior para financiar o Estado. A percepção de flexibilização de âncoras fiscais, somada à criação frequente de tributos e contribuições, alimenta essa desconfiança. Quem paga primeiro é a indústria, porque crédito é insumo de investimento. E quem paga por último é o consumidor, via preço. Não é ideologia: é aritmética financeira. Sem ajuste, Selic fica alta e o país patina.

Também pesa o desenho de políticas de transferência e subsídios. Proteção social é necessária, mas quando cresce sem portas claras de saída — qualificação, emprego formal, produtividade — ela pode reduzir incentivos ao trabalho e aumentar pressão fiscal. A crítica não é contra o beneficiário, e sim contra a arquitetura do sistema. Se o Estado amplia despesas permanentes sem contrapartida de crescimento, ele empurra o custo para tributos e endividamento. No fim, o trabalhador formal financia tudo de forma contínua.

Outra camada é a insegurança jurídica. Empresas não investem com confiança quando regras mudam rápido, quando litigiosidade é alta ou quando decisões administrativas parecem inconsistentes. Some-se a isso o custo reputacional da corrupção, que, mesmo sem generalizações, aparece em sucessivas investigações e denúncias no país. O resultado é conhecido: mais risco percebido, mais juros e mais exigência de garantias. Crédito vira privilégio de poucos, e o restante opera no “capital próprio”, menor e caro para manter produção, emprego e caixa.

Quando a CNI diz que a política monetária está restritiva, o recado para a inovação é duro. Pesquisa e desenvolvimento dependem de horizonte longo e custo de capital tolerável. Se 71% têm dificuldade para crédito acima de cinco anos, projetos viram “plano na gaveta”. Isso reduz competitividade externa e enfraquece cadeias locais. A indústria vira montadora de importado, em vez de criadora de tecnologia. O país perde valor agregado, e a arrecadação futura cai mais em setores intensivos em máquinas.

O recorte por porte é revelador: as médias empresas ficam no pior dos mundos. Elas são grandes demais para sobreviver só com capital próprio e pequenas demais para negociar condições como as gigantes. Não por acaso, 43% delas falharam no crédito de longo prazo. Isso destrói um motor clássico de industrialização: o “middle market”, onde costuma nascer inovação incremental e emprego qualificado. Sem crédito, essas empresas reduzem estoque, cortam turno, adiam máquina e perdem mercado para concorrentes mais capitalizados hoje.

A baixa adesão ao risco sacado (13%) sugere duas hipóteses: custo elevado e pouca compreensão do instrumento. Em tese, é uma solução para fornecedores que querem antecipar recebíveis sem estrangular fluxo de caixa. Mas, se a taxa embutida é alta, ele vira apenas um “alívio caro”. O dado de 29% que não souberam responder também aponta lacuna de educação financeira corporativa, especialmente em pequenas e médias. Sem instrumentos, o empresário financia produção no cheque especial empresarial e perde margem mês.

Quando o debate público se concentra em pautas identitárias ou disputas ideológicas, o custo de oportunidade é alto: reforma microeconômica fica para depois. A indústria pede previsibilidade, simplificação tributária, ambiente regulatório estável e infraestrutura. Sem isso, o país vira refém de juros e câmbio. O governo, qualquer que seja, precisa reduzir ruído e entregar sinal claro de responsabilidade fiscal. Não é “austeridade por austeridade”; é criar espaço para crédito cair sem forçar o Banco Central a segurar sozinho a inflação.

A metáfora do “piloto sumiu” funciona porque a economia precisa de comando previsível. Se o setor produtivo não sabe qual será a regra do jogo tributária, trabalhista e fiscal nos próximos meses, ele investe menos. E investimento menor reduz crescimento, o que piora arrecadação e aumenta pressão por impostos — um ciclo. A pesquisa da CNI não é propaganda empresarial; é termômetro de chão de fábrica. Quando o crédito trava, a produção não “se vira”; ela encolhe com efeitos imediatos.

Se o governo quer destravar o país, a prioridade é simples e difícil: credibilidade. Isso passa por regra fiscal compreensível, gasto público com avaliação de resultado, combate consistente a desvios e agenda de produtividade. Com isso, a política monetária ganha espaço para aliviar. Sem isso, juros altos viram sintoma permanente, não remédio temporário. A indústria já deu o aviso com números: oito em dez com dificuldade. O próximo capítulo depende de escolhas, não de discursos com responsabilidade, sem improviso político.

Por Pr. Rilson Mota

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