São José dos Pinhais, 12 de janeiro de 2026
O tornado que atingiu o bairro Guatupê, em São José dos Pinhais, no fim da tarde de sábado (10), foi classificado pelo Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) como F2 na Escala Fujita. O enquadramento significa ventos estimados entre 180 km/h e 253 km/h, embora o órgão tenha indicado que o evento ficou nos valores mais baixos dessa faixa. Ainda assim, os danos observados foram considerados expressivos para a área atingida.
A análise técnica foi encerrada no início da tarde de domingo (11), após integração de dados instrumentais e verificação em campo. A equipe combinou leitura de radares meteorológicos, inspeção do corredor de danos e mapeamento aéreo. O objetivo foi diferenciar tornado de outros mecanismos de vento severo e estimar intensidade a partir de indicadores compatíveis com a Fujita. O Simepar comparou o evento com o tornado de Rio Bonito do Iguaçu, classificado como F4 em novembro.
Segundo a Defesa Civil Estadual, o fenômeno afetou 350 residências e impactou cerca de 1.200 pessoas. Duas pessoas tiveram ferimentos leves, e duas famílias ficaram desalojadas, indo para casa de familiares. No domingo, foram encaminhadas 2,6 mil telhas para apoio emergencial. Além de telhados danificados, houve queda de árvores e falhas na rede de energia elétrica, exigindo atuação coordenada de equipes de resposta, limpeza urbana e restabelecimento de infraestrutura.
O Simepar detalhou que o ambiente meteorológico era favorável a tempestades severas: calor e umidade elevados, além de um sistema de baixa pressão que atuou entre Uruguai e Rio Grande do Sul e se deslocou ao oceano. A mudança dos ventos em altitude contribuiu para pancadas de chuva e tempestades na faixa Leste do Paraná. Nesse cenário, uma célula mais intensa se formou sobre Almirante Tamandaré e Colombo e avançou por Curitiba até São José dos Pinhais.
Em Curitiba, a estação do Simepar no Jardim das Américas registrou rajadas de 56,5 km/h no fim da tarde, enquanto estações municipais apontaram valores maiores em bairros como Boqueirão, Pinheirinho, Portão e Boqueirão, com registros acima de 60 km/h. Esses números ajudam a descrever a severidade do sistema, mas não substituem a classificação do tornado, que depende do padrão de danos no corredor estreito. O vento de um tornado pode ser muito mais intenso localmente.
O meteorologista Leonardo Furlan explicou que o tornado foi relativamente estreito, com pequena extensão horizontal, mas capaz de produzir danos significativos. Ele descreveu alternância do contato da nuvem funil com o solo: em alguns momentos, a circulação tocava o chão e gerava dano identificável; em outros, subia e o dano cessava, resultando em estragos pontuais. Esse comportamento é compatível com tornados intermitentes, onde a assinatura de dano aparece em “ilhas” ao longo da trajetória.
A mesma célula de tempestade avançou para o Litoral e provocou temporais em Guaratuba e Matinhos. Em Guaratuba, rajadas passaram de 60 km/h e houve acumulado de chuva superior a 60 mm em menos de meia hora, segundo o boletim. Esses dados reforçam que o sistema convectivo manteve energia e organização após cruzar a região metropolitana, produzindo episódios severos em diferentes municípios, com risco de alagamentos, destelhamentos e queda de galhos.
A classificação começou assim que meteorologistas de plantão identificaram a possibilidade de formação de tornado. Foram analisados dados do radar instalado no Simepar, em Curitiba, e também radares de estados vizinhos com cobertura do Leste paranaense. Ainda na noite de sábado, o meteorologista Reinaldo Kneib foi ao local para registrar os impactos iniciais e coletar evidências. Em paralelo, equipes em Curitiba já discutiam hipóteses de intensidade e trajetória com base nas informações preliminares.
No domingo, os meteorologistas Leonardo Furlan e Júlia Munhoz retornaram ao Guatupê, junto com a gerente de Geointeligência Elizabete Bugalski. Elizabete sobrevoou a área com drone equipado com sensor LiDAR, gerando dados de mapeamento que foram compartilhados com meteorologia e Defesa Civil. Em solo, Leonardo e Júlia percorreram o trajeto a pé, conversando com moradores e analisando arremesso de objetos, destelhamentos, danos estruturais e vegetação.
Júlia Munhoz apontou que o evento foi bem documentado por moradores, com vídeos que ajudaram a determinar a trajetória antes mesmo do trabalho presencial. Segundo ela, o tornado percorreu o município em eixo nordeste–sudoeste, começando no extremo norte, próximo às divisas com Piraquara e Pinhais, e avançando até a Rua do Girassol, no Guatupê. O desenho da trilha e o padrão dos danos são elementos centrais para o enquadramento na Escala Fujita.
A meteorologista ressaltou que a presença em campo é decisiva para a compreensão do fenômeno: observar para onde objetos foram lançados, onde houve mais destelhamento, onde houve dano estrutural e como a vegetação ficou. Esses detalhes permitem distinguir intensidade e reduzir viés causado por construções frágeis. O trabalho encontrou moradores já mobilizados na reconstrução, o que torna o registro rápido ainda mais importante, porque reparos podem apagar evidências que ajudam a classificar corretamente o tornado.
O Simepar destacou que este foi o segundo tornado de 2026 no Paraná. O primeiro foi classificado como F1 em Mercedes, com ventos estimados em torno de 120 km/h no dia 1º, causando danos na localidade de Arroio Guaçu. O órgão também manteve alerta para risco de tempestades severas no domingo e na segunda-feira, com possibilidade de rajadas, enxurradas e descargas elétricas em áreas do Litoral, Campos Gerais e Norte Pioneiro, além de instabilidade irregular em outras regiões.
Comentário exclusivo
Classificar como F2 é mais do que dar um “rótulo”: é transformar destruição em métrica de risco. A Escala Fujita infere velocidade do vento a partir de danos observados em indicadores padronizados, e isso exige controle de variáveis como qualidade construtiva e manutenção. Quando o Simepar diz que o tornado atingiu os valores mais baixos de F2, ele está calibrando a inferência para não superestimar. Esse cuidado é crucial, porque números inflados distorcem planejamento urbano e comunicação de risco para a população.
O caráter “relativamente estreito” e a alternância do funil tocando o solo explicam por que muitas pessoas percebem o evento como irregular: em tornados intermitentes, o dano aparece em trechos, com lacunas. Isso é compatível com vórtices que intensificam e enfraquecem rapidamente, especialmente em tempestades convectivas de curta duração. Para engenharia de defesa civil, o recado é duro: não dá para depender da sorte de estar fora do corredor. Em minutos, uma quadra é devastada e a seguinte quase não vê efeito.
O uso de LiDAR em drone é um salto metodológico no Brasil. Diferente de fotos, o LiDAR mede relevo e volume, permitindo identificar árvores arrancadas, inclinação, queda de galhos e até deformação do terreno em alta resolução. Isso ajuda a mapear largura do corredor e gradiente de danos, reduzindo o viés do “olho humano” em campo. Para classificação, o LiDAR permite quantificar padrões de destruição e comparar com modelos de vento. O ganho final é credibilidade: a conclusão vira reprodutível e auditável.
Os dados de rajada em Curitiba (56,5 km/h no Simepar e acima de 60 km/h em estações municipais) não contradizem o F2; eles mostram diferença entre vento ambiental e vento no núcleo do tornado. Tornados têm pico local altíssimo em faixa estreita, enquanto estações fixas podem ficar fora do corredor e registrar “apenas” o vento da tempestade. Por isso, usar rajada de estação como “prova” do nível Fujita é erro comum. A classificação correta depende do corredor de danos, não do máximo em anemômetro distante.
Comparar com o F4 de Rio Bonito do Iguaçu é útil para contextualizar sem exagerar. F4 é outro patamar de destruição, com danos estruturais severos e potencial de colapso de edificações mais robustas. Já um F2, mesmo nos valores baixos, ainda é capaz de arrancar telhados, derrubar árvores grandes e danificar rede elétrica, como ocorreu no Guatupê. A lição é que “menos forte” não significa “leve”. Em áreas urbanas, um F2 pode afetar centenas de casas.
A resposta imediata — 2,6 mil telhas e reparo de energia — reduz danos secundários, mas não resolve vulnerabilidade. A reconstrução precisa incorporar fixação adequada: amarração de cobertura, ancoragem em vigas, revisão de beirais e reforço de pontos frágeis. Sem isso, a cidade reconstrói para cair de novo. Uma estratégia eficiente é usar a classificação F2 como parâmetro de projeto para telhados em zonas expostas, principalmente onde ventos canalizam. Prevenção custa menos que assistência e reduz deslocados.
Por fim, o alerta do Simepar e da Defesa Civil sobre novas tempestades é o “fechamento operacional” do evento: não basta entender o que aconteceu; é preciso antecipar o próximo. O SMS 40199 com CEP é uma ferramenta útil, mas só funciona se a população confiar e souber o que fazer quando o alerta chegar. O desafio é transformar ciência em ação: criar rotinas de abrigo, revisar escolas e postos de saúde, e educar para o risco. Tornado F2 é aviso, não exceção.
Por Pr. Rilson Mota
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