Teerã, 09 de janeiro de 2026
Com slogans contra o governo e buzinas ao redor, iranianos voltaram às ruas apesar da repressão, segundo depoimentos colhidos fora do país por jornalistas. Um manifestante identificado como “Majid”, nome usado por segurança, descreveu irritação nos olhos causada por gás lacrimogêneo e voz rouca após horas de gritos. Ele afirmou ter participado de concentração na zona leste de Mashhad, na noite de quarta-feira, em meio a dispersões e reagrupamentos contínuos.
Majid relatou que a força de contenção tentou esvaziar a via repetidas vezes, mas que grupos menores retornavam logo depois, mantendo a ocupação do espaço público até a madrugada. Ele mencionou uso de balas de borracha, gás lacrimogêneo e espingardas, sem detalhar calibre ou origem, e disse ter visto pessoas feridas. Por segurança, ele e outros entrevistados falaram com a imprensa via aplicativos e pseudônimos, fora do Irã ontem.
A onda de protestos, conforme descrito na reportagem, teria começado no fim de dezembro, impulsionada por indignação com o custo de vida e pela desvalorização da moeda. A evolução, segundo os relatos, passou de atos localizados a mobilizações simultâneas em várias cidades, com crescimento de público e de confrontos. Essa dinâmica costuma ocorrer quando redes de comunicação aceleram, mesmo sob bloqueios, e quando a crise econômica afeta diferentes estratos sociais.
Na noite de quinta-feira, manifestações foram registradas em Teerã e em outras localidades, apesar da repressão, segundo a ONG Iran Human Rights. A entidade afirmou que dezenas morreram, enquanto uma contagem da mídia local e de comunicados oficiais mencionou ao menos 21 mortes, incluindo integrantes das forças de segurança. A ONG elevou o total para 45. Como os números divergem, especialistas recomendam tratá-los como estimativas preliminares, até confirmação independente formal.
A reportagem remete à memória recente de 2022-2023, quando protestos em massa ocorreram após a morte, sob custódia, de Mahsa Amini, detida por suposta violação do código de vestimenta. Naquela ocasião, organizações relataram repressão intensa e prisões massivas. O contexto atual, embora descrito como economicamente motivado, reacende pautas políticas e de direitos civis. Analistas observam que ondas sucessivas tendem a aumentar participação, mas também elevam o risco para manifestantes hoje.
Majid, vendedor ambulante na casa dos trinta anos, disse que os protestos atuais agregam grupos sociais antes menos pressionados. Ele afirmou ter visto mulheres mais velhas, trabalhadores informais e comerciantes repetindo slogans em conjunto. Para ele, essa adesão transversal cria sensação de “última luta” contra o governo. Ao mesmo tempo, declarou não saber o que viria depois, apontando unidade na rejeição, mas incerteza sobre a arquitetura política futura nacional ainda.
No oeste do país, um comerciante de 43 anos em Kermanshah relatou ter fechado a loja em adesão a uma greve convocada para quinta-feira. Ele disse que participou de protestos desde 2009, após eleições contestadas, mas avaliou que a conjuntura atual é crítica por causa do que chamou de colapso econômico. Segundo o depoimento, trabalhar não tem sido suficiente para acompanhar a inflação, e a demanda é por mudanças radicais.
O mesmo comerciante afirmou desejar um Irã “livre e democrático” e mencionou também a pauta curda em seu discurso, sem detalhar filiação política. Em Saqqez, na província do Curdistão, outro comerciante disse esperar protestos mais intensos e generalizados nos próximos dias em cidades curdas. As falas, atribuídas à AFP, apontam para uma combinação de reivindicações econômicas e identitárias, frequentemente presentes em regiões periféricas. O efeito disso é difícil prever agora.
Em Teerã, uma moradora relatou que ela e vizinhos têm gritado slogans das janelas à noite, tática usada em 2022 durante os protestos “Mulher, Vida, Liberdade”. Segundo ela, o nível de insatisfação atual seria o mais alto já vivido, e a meta do grupo não seria apenas medidas pontuais, mas mudança de regime. Ela descreveu a vida cotidiana como luta prolongada desde a revolução de 1979 e segue até hoje.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, pediu “moderação” e anunciou medidas para tentar responder às queixas, segundo a reportagem. A moradora de Teerã, porém, disse que tais respostas seriam insuficientes porque, para parte dos manifestantes, a demanda é estrutural. Esse descompasso entre concessões graduais e reivindicações de ruptura costuma elevar o impasse, especialmente quando há perdas humanas e detenções. Em regimes fechados, a ausência de canais institucionais amplia o impasse ainda.
Outra moradora de Teerã, mãe de dois filhos, contou ter avisado um parente no exterior que estava bem, mas que a conexão de internet se tornava instável. Pouco depois, segundo o relato, houve interrupção do acesso em escala nacional às vésperas dos protestos de quinta-feira. Ela disse que a obtenção de mantimentos ficou mais difícil após dias de manifestações, porque lojas reduziram horários e deslocamentos foram afetados e pediu cautela.
Como os depoimentos foram colhidos fora do Irã e com nomes trocados por pseudônimos, a verificação depende de cruzamento com imagens, registros médicos, comunicados oficiais e monitoramento independente. Esse formato reduz risco às fontes, mas amplia assimetria informacional. A divergência entre contagens de mortos, de 21 a 45, ilustra limitação em cenários de repressão e internet instável. Para evitar desinformação e contestações, a reportagem precisa declarar método, fontes e incertezas.
Em Mashhad, Majid descreveu ondas de dispersão e reagrupamento, com buzinas de apoio. Esse padrão busca reduzir vulnerabilidade a cercos e abrir rotas de saída. A mobilização em vias de tráfego aumenta visibilidade, mas traz riscos de pânico. Em Teerã, gritos das janelas indicam adaptação quando a rua se torna mais perigosa. Em contextos assim, pequenos grupos coordenados por mensagens costumam escolher pontos simbólicos e recuar antes do cerco completo.
A reportagem liga os protestos à crise econômica, após anos de sanções e à guerra de junho contra Israel, segundo o texto. Nesse quadro, a liderança clerical do aiatolá Ali Khamenei enfrenta pressão sobre renda real e preços. Movimentos pautados por custo de vida escalam quando a moeda se desvaloriza rápido, corroendo salários e poupanças. A participação de comerciantes e greves sugere impacto em consumo, margens e capital de giro.
Relatos de gás lacrimogêneo e balas de borracha indicam estratégia de dispersão que pode causar lesões graves, sobretudo em ruas cheias e à noite. A referência a espingardas, sem detalhes, requer cautela. Ainda assim, multidões, baixa visibilidade e agentes armados elevam risco de trauma e pânico. Organizações de direitos humanos costumam pedir investigação independente e acesso a socorro médico, mas bloqueios e internet instável dificultam documentação e ampliam incerteza pública.
Sem acesso direto e contínuo às ruas, o retrato do movimento depende de relatos dispersos, vídeos curtos e balanços parciais. A tendência descrita é de continuidade, mas a intensidade depende de organização, resposta estatal e condições econômicas. Para pesquisadores, sinais críticos incluem adesão de setores produtivos, expansão geográfica e resistência a cortes de comunicação. Os depoimentos relatam medo e disposição de voltar às ruas, com risco. O desfecho permanece aberto.
Créditos: Reportagem extraída do THE TIMES OF ISRAEL, com relatos atribuídos à AFP.
Comentários
A matéria expõe um paradoxo clássico de regimes sob estresse: quanto mais o Estado tenta encerrar a crise pela força, mais amplia o custo político de recuar. Quando manifestantes dizem que “podem não sobreviver”, o protesto deixa de ser apenas reivindicação econômica e vira aposta existencial. Esse deslocamento muda a matemática do medo. A repressão pode reduzir presença em um dia, mas tende a multiplicar adesão em outro, sobretudo quando há luto público e sensação de injustiça acumulada.
Há um ponto técnico decisivo: informação. Cortes de internet e instabilidade de conexão não são apenas medidas de controle; eles alteram a própria capacidade social de checar fatos, organizar saídas seguras, procurar socorro e documentar abusos. Isso cria um ambiente perfeito para rumores, manipulação e propaganda, tanto por agentes estatais quanto por atores externos interessados em inflamar o caos. A consequência é dupla: a violência se torna mais provável e a verdade se torna mais rara, exatamente quando ela é mais necessária.
Outro aspecto que merece crítica é a fragilidade de métricas de mortalidade em situações de cerco informacional. Quando contagens divergem (21, 45 ou mais), a discussão pública pode ser sequestrada por quem escolhe o número que melhor serve ao seu discurso. A imprensa precisa insistir em método: fonte, escopo, período, critérios de inclusão. Sem isso, estatísticas viram munição retórica. E, em conflitos internos, a disputa por narrativa é quase tão estratégica quanto o controle físico das ruas.
A economia aparece como gatilho, mas também como combustível permanente. Desvalorização cambial, inflação e perda de renda corroem o cotidiano de forma invisível, e esse tipo de sofrimento se acumula até transbordar em eventos aparentemente súbitos. O risco é o governo tratar tudo como conspiração e ignorar variáveis materiais, enquanto parte dos manifestantes interpreta qualquer medida de ajuste como “cosmética”. Quando ambos os lados deixam de reconhecer custos reais — de vida, trabalho e segurança — o país entra num ciclo de radicalização que empobrece a sociedade e fecha saídas negociadas.
A transversalidade social descrita — jovens, idosos, comerciantes, trabalhadores informais — é um sinal de alerta institucional. Movimentos que atravessam classes tendem a ter maior resiliência porque não dependem de uma única identidade política. Porém, essa amplitude também eleva o risco de infiltração oportunista e de escalada descontrolada, pois agendas diferentes convivem na mesma rua. Sem liderança reconhecida e sem canais institucionais, a energia coletiva pode produzir coragem, mas também pode produzir decisões impulsivas, com alto custo humano.
A greve e o fechamento de lojas são outro marcador técnico: quando o protesto toca o circuito econômico, ele deixa de ser apenas simbólico e passa a pressionar a governabilidade. Ao mesmo tempo, a interrupção de comércio e o encurtamento de horários atingem diretamente a população, inclusive quem protesta. Esse é o dilema de movimentos sob repressão: parar a economia amplia pressão, mas também amplia sofrimento imediato. É nesse ponto que redes de solidariedade e logística comunitária tornam-se determinantes — e é aí que o corte de internet agrava tudo.
Do ponto de vista de direitos humanos e de controle de distúrbios, a matéria descreve instrumentos de dispersão com potencial lesivo. Em ambientes noturnos e densos, gás e munições menos letais podem resultar em traumas graves, principalmente por pânico, correria e efeitos respiratórios. A crítica técnica aqui é objetiva: quando o Estado prioriza a dispersão rápida sem transparência e sem prestação de contas, ele aumenta a probabilidade de morte indireta e reduz a capacidade de investigação posterior. O resultado costuma ser mais raiva, menos governabilidade.
Por fim, a própria cobertura precisa reconhecer seus limites e, ao mesmo tempo, não ser capturada por eles. Usar pseudônimos e entrevistar fora do país protege fontes, mas exige rigor redobrado na validação cruzada. O leitor tem direito a saber o que é relato, o que é dado oficial e o que é estimativa. A crítica mais dura, porém, é política: quando um governo transforma a rua em zona de risco permanente e a conexão em instrumento de coerção, ele troca legitimidade por controle. Isso raramente termina bem.
Por Pr. Rilson Mota
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