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Polícia religiosa do Taleban determina que mulheres se cubram com vestes islâmicas

Rilson Mota por Rilson Mota
13 de janeiro de 2022
em Mundo, Região
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Polícia religiosa do Taleban determina que mulheres se cubram com vestes islâmicas
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Medida repete restrições impostas pelo regime talibã anterior, no final dos anos 1990. Mulheres temem ser agredidas se não cumprirem a determinação

A polícia religiosa do Taleban espalhou cartazes pela capital do Afeganistão, Cabul, ordenando que as mulheres afegãs se cubram com as vestes islâmicas. A medida é a mais recente de uma série de restrições de gênero impostas pela organização extremista desde que assumiu o poder, em agosto de 2021. As informações são da rede Radio Free Europe (RFE).

O material de campanha, produzido pelo Ministério para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, inclui a imagem de uma mulher usando o hijab, o véu que faz parte do conjunto de vestimentas recomendado pela doutrina islâmica. Pôsteres foram colocados em locais públicos como cafés e lojas. “De acordo com a lei Sharia (sistema jurídico do Islã), as mulheres muçulmanas devem usar a burca”, diz a mensagem.

No entanto, Akef Mohajer, porta-voz do ministério, garante que, apesar dos avisos, a regra obrigatória para as mulheres usarem o véu islâmico não será cobrada com a rigidez que caracteriza os militantes. “Se alguma não seguir isso, não significa que será punida ou espancada. Os cartazes são apenas um incentivo para as nossas irmãs serem encorajadas a usar o hijab“.

Uma mulher afegã vestida com uma burca tradicional caminha pelo trânsito no centro de Cabul (Foto: Jason Brisebois/Flickr)

As mulheres não parecem muito seguras quanto a esse discurso de flexibilização, já que a história recente mostra o contrário. Quando controlou o Afeganistão entre 1996 e 2001, o regime talibã também obrigou as mulheres a usarem um lenço na cabeça. Aquelas que violavam a regra eram frequentemente espancadas em público.

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Os cartazes despertaram indignação entre as afegãs. Algumas argumentam que o véu negro não faz parte da cultura local. Entre elas a moradora da província de Wardak, que alega que o hijab e o xador (veste feminina que cobre o corpo todo com a exceção do rosto) não integram as vestes típicas das mulheres e meninas afegãs.

Já outra identificada como Lina, moradora de Cabul, diz que ficou horrorizada quando se deparou com a nova campanha do ministério talibã. “Ao fazer isso, eles querem incutir medo no coração das pessoas. Eles podem governar pela força e impor uma cultura estrangeira ao povo. Tenho medo do dia em que o Taleban chicoteará as mulheres sobre suas cabeças”, revela.

A nova realidade no país tem sido particularmente devastadora para as mulheres, que voltaram a viver sob um regime repressivo baseado numa interpretação radical do Islã. Entre as imposições dos talibãs às mulheres, além da proibição de saírem de casa desacompanhadas, estão o veto à educação em escolas e ao trabalho e inúmeros casos de solteiras ou viúvas forçadas a se casar com combatentes.

Por que isso importa?

A repressão de gênero é uma das principais marcas desse início de governo talibã e se espalha por diversas setores da sociedade. As mulheres que tinham cargos no governo afegão antes da ascensão talibã seguem impedidas de trabalhar, e a cúpula do governo que prometia ser inclusiva é formada somente por homens. A perda do salário por parte de muitas mulheres que sustentavam suas casas tem contribuído para o empobrecimento da população afegã.

Na educação, o governo extremista mantém fora da escola as meninas acima dos sete anos de idade em diversas regiões do país. Algumas poucas províncias, entre as 34 existentes, permitiram a volta das meninas à escola. Assim, muitas têm recorrido a uma instituição que ministra aulas online, a fim de não interromperem os estudos.

Mulheres também não podem sair de casa desacompanhadas, e há relatos de solteiras e viúvas forçadas a se casar com combatentes. Para lembrar as afegãs de suas obrigações, os militantes ergueram cartazes em algumas áreas para informar os moradores sobre as regras. Em partes do país, as lojas estão proibidas de vender mercadorias a mulheres desacompanhadas.

Há também um código de vestimenta para as mulheres, forçadas a usar o hijab quando estão em público. Como forma de protestar, mulheres afegãs em todo o mundo iniciaram um movimento online, postando fotos nas redes sociais com tradicionais roupas afegãs coloridas, sempre acompanhadas de hashtags como #AfghanistanCulture (cultura afegã) e #DoNotTouchMyClothes (não toque nas minhas roupas).

A proibição do esporte feminino é outra realidade sob o governo talibã. Embora o grupo extremista não tenha emitido uma nota oficial sobre o veto, ele se faz presente na rotina das atletas afegãs. Depois do críquete feminino, cuja proibição foi anunciada pelo vice-líder da comissão cultural do Taleban, Ahmadullah Wasiq, a repressão atingiu outra modalidade muito popular no país: o taekwondo.

O Afeganistão tem apenas duas medalhas olímpicas em sua história: dois bronzes conquistados pelo atleta do taekwondo Rohullah Nikpai em Beijing 2008 e Londres 2012. As conquistas de Nikpai no masculino popularizaram o esporte no país, inclusive entre as mulheres. Porém, agora que o Taleban assumiu o poder, a prática tem se restringido aos homens, e as escolas que ofereciam aulas de taekwondo para mulheres fecharam as portas.

Fonte

Tag: Afeganistãodireitos humanosTalebanViolência Contra a Mulher

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